Cinema mudo

4 Sep 2018

 

O mundo, pouco a pouco, vai se tramando e a cena é de um ônibus urbano: pessoas por todos os lados, cheiros de um dia inteiro de trabalho habitando sovacos e bocas, sacolas de compras no corredor dificultando ainda mais o trânsito dentro do coletivo, um moço que entra pela porta da frente e começa seu discurso de vendedor, alertando que não estava ali para roubar, que na padaria seu produto custava um tanto, mas que com ele não, com ele o mesmo produto custaria menos da metade do preço, vai freguesa? O motorista faz questão de acelerar o máximo que pode, supostamente testando a capacidade dos passageiros de se equilibrarem e vencerem a inércia.

 

Um calor abusado, mesmo sendo quase sete da noite. À minha frente, sentados no banco de napa furada, um homem e uma mulher, ambos rondado os vinte e poucos; ela por vezes pende a cabeça de um lado a outro, evitando o que pode o cochilo; ele, celular entre as mãos, entretido com um joguinho bobo de uma cobra que fica comendo coisas pelo caminho.

 

O vendedor pede ao motorista que pare o ônibus e salta, não sem antes jogar um saquinho de balas no painel do ônibus. Agradecimento.

 

Pressinto a modorra que sempre vem quando volto do trabalho. É como se essas viagens diárias fizessem parte de um filme em que eu sou um observador inerte e distante.

 

Tem acontecido todos os dias. Como um desmaio, como se eu me ausentasse de mim, como se o mundo de repente perdesse a capacidade de emitir sons e eu apenas estivesse ali mas sem escutar nada. Posso antecipar que daqui a pouco vai acontecer de novo. Que os sons paulatinamente desaparecerão, restando em minha cabeça só um marejar, um rumor regular e indefinido, sem origem distinta. Talvez seja o som dos líquidos percorrendo meu corpo. Os sons de meu corpo insistindo em viver. Acontece todos os dias assim que anoitece e, invariavelmente, nesta hora eu estou num ônibus maldito como este, balançando cansado e pendurado na barra metálica morna e emplastrada de gordura de outras mãos.

 

O celular do homem sentado no banco à minha frente emite um som que chama a minha atenção e eu vejo no mostrador do aparelho que ele perdeu o jogo, permitindo que a cobra comesse a si mesma. Bela analogia para todos neste ônibus. Ele guarda o celular no bolso traseiro do jeans e olha acintosamente para os seios da moça a seu lado, ladeados pelo algodão da blusinha barata. Ela percebe o olhar quase sólido tocando-lhe os peitos e respira fundo, fazendo com que os dois montículos, armados pelos dois bicos de seio que despontam da blusa, desenhem um traço vertical. Ele fala alguma coisa e ela o ignora.

 

Como os surdos. Uma pessoa surda deve escutar este som que já começou em minha cabeça e que, em poucos minutos, tomará conta de tudo e o mundo passará a ser apenas um filme mudo, restando a mim aceitar passivamente ser espectador único e cativo. Dou um soco na barra de ferro e a senhora rechonchuda em pé ao meu lado me olha, como quem pensa: esse aí está pior do que eu.

 

A moça cede enfim ao olhar insistente do homem a seu lado e diz algo - provavelmente do tipo você sempre toma esse ônibus? Ele responde alguma coisa e se ajeita no banco, encostando-se mais nela e espremendo-a na fórmica azul claro que emoldura a janela do ônibus. Ela não impõe qualquer resistência. Coxas coladas, os bicos dos seios apontam ainda mais, o que me leva a olhá-los mais detidamente e perceber que são de fato atraentes.

 

Penso em Ana Luiza e nas tardes sonolentas de sexo e preguiça, e então fecho os olhos, para que a ausência do mundo se torne completa. Não quero mais estar aqui. Preferia me uterar num mato qualquer, criar galinhas e morrer solitário, surdo e sem lembranças. Por quê, meu Deus?

 

O ônibus segue célere pelos subúrbios e vai aos poucos se esvaziando. Vaga um lugar no lado de lá do corredor e num salto me instalo ali, conseguindo um excelente ponto de observação. Vejo o rapaz pousando a mão direita na perna da moça e ela permitindo, tremurosa. Ele a beija no pescoço e ela se encolhe, desenhando uma carinha tímida e bastante conveniente. Ele passa o braço por cima dos ombros da moça e eu posso ler seus lábios, desejosa: gostoso.

 

Oito anos atrás. Eu saltando do mesmo ônibus. O maldito. Na época, tinha começado num emprego de locutor de loja. Ficava o dia todo berrando num microfone de som arranhado as promoções imperdíveis que a loja oferecia. Como era meu primeiro dia, tinha perdido a voz de tanto berrar naquele maldito microfone vagabundo. Não tinha sabido poupá-la e, no final do dia, falei por gestos com o gerente da loja que não dava mais, que a voz já tinha ido embora, que no dia seguinte eu não daria conta do recado. Ele me deu um tapinha amistoso nas costas e me disse para ir para casa, que chá de romã é ótimo, que ele já tinha passado por isso e tal e que amanhã eu estaria tinindo de novo.

 

O casalzinho está num amasso de fazer inveja e eu me excito com isso. A ausência de sons do mundo me facilita a concentração, e eu me vejo ali ao lado da mocinha, minhas mãos acariciando os seios redondos dela como as dele o fazem. Quase consigo sentir o perfume no seu pescoço - um perfume doce que pouco me agrada, mas que seria um perfume que Ana Luiza gostaria de usar. Ela tinha um péssimo gosto para perfumes. Somos só eu, o casalzinho e duas mulheres gordas no ônibus que se esvazia depressa. O motorista ajusta o retrovisor e lança um olhar excitado para o casal em chamas.

 

Saltei no ponto e caminhei os dois quilômetros até o conjunto habitacional de casas que se pareciam com peças de dominó: uma depois da outra, coladas, iguais, perfeitas e lineares. Davam-me a sensação de que quem morava nelas se tornaria, mais cedo ou mais tarde, tão igual quanto: pares, não identificadas, permanentes. Chegando em casa, percebi que tinha esquecido as chaves, merda! Ainda procurei nos bolsos mais uma vez. As chaves não estavam ali. Tentei chamar Ana Luiza, mas me lembrei de que estava sem voz e resolvi circundar a casa e bater na vidraça do quarto dos fundos, onde ela passava os dias costurando.

 

Escutei vozes que vinham do quartinho. Olhei pela vidraça e engasguei com a minha respiração: Ana Luiza estava embaixo do corpo de um homem que a socava com voracidade. A cama de armar que era usada pela mãe de Ana Luiza quando vinha nos visitar sacudia ferozmente e dava a impressão de um desmonte iminente. Pelo chão, havia carretéis, potes de agulhas e pedaços de tecido espalhados. Ainda consegui escutar ao longe o som dos gemidos de Ana Luiza, antes de vomitar no canteiro de flores.

 

As duas mulheres gordas saltam do ônibus e o motorista acelera, sabendo que daqui a pouco estará livre. Provavelmente sua última viagem. Depois poderá ir para casa, foder sua mulher e dormir no sofá, arrotando a cerveja morna que tinha bebido no botequim da esquina, enquanto esquadrinhava as ancas da mulatinha gostosa que sempre ia àquela hora comprar um maço de cigarros de filtro branco.

 

Toco o sinal e me levanto, percebendo em mim uma ereção violenta, ocasionada pela atuação do casal, que também se levanta e fica na minha frente, esperando que o ônibus pare por completo. Aproveito para me roçar de leve na moça, que se vira, me olha de alto a baixo e se apruma, zangada. Saltamos os três e, de propósito, caminho mais lentamente que eles, olhando a bundinha da moça. Ele enfia a mão no bolso traseiro da calça dela. Eles se distanciam um pouco mais de mim e eu os perco de vista quando dobram uma esquina.

 

Eu não conseguia falar uma palavra sequer. Queria berrar, queria entrar na minha casa e, com voz de macho, expulsar o macho que comia minha mulher. Queria surrar Ana Luiza até que sangrasse e queria acima de tudo parar de escutá-los. Era um suplício escutá-los! E a voz que não saía e o cansaço e a sensação de não ter feito nada certo: ter esquecido as chaves, ter perdido a voz, ter amado pouco, não ter tido filhos, não, não, não. Me lembrei de uma arma que eu tinha encontrado à beira de um terreno baldio depois de um enfrentamento entre traficantes e a polícia. Eu a tinha escondido atrás do tanque. Peguei-a, fui até a janela do quartinho, apontei para os dois sem-vergonhas e apertei o gatilho, mas não senti o coice da arma. Sentei-me sobre flores do canteiro com a pistola sem balas entre as mãos e enxuguei os olhos na manga do paletó. Eu não escutava mais nada. O mundo estava em silêncio, enfim.

 

Apresso o passo para continuar observando o casal e, chegando perto da esquina, vejo a sombra dos dois. Contenho o passo. Merda, maldita surdez. Não os ouço, mas quero ouvi-los, intimamente gostando da excitação que o casal me proporciona. Dobro a esquina e consigo vê-los novamente. Ela, deitada na calçada imunda, com as roupas rasgadas e tentando sair dali; ele, por cima, metendo nela, currando a moça. Ela me vê e ensaia um sorriso desesperado. Ele vira-se e estaca as investidas. A sensação é a de que os dois esperam pela minha reação: ele assustado, ela aliviada. Sinto uma preguiça tremenda e apenas digo, ou penso ter dito, pois nem minha voz consigo escutar:

 

– Faça um bom trabalho, meu velho.

 

E caminho para casa, acariciando meus bagos. O jornal antes da novela, não posso perdê-lo.

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