Balrures

26 Jul 2018

As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos,

ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto,

que as suas regras sejam absurdas,

as suas perspectivas enganosas,

e que todas as coisas escondam uma outra coisa.

(Italo Calvino, "As cidades invisíveis")

 

Uma película fina de manhã se desnuda e calmamente a paisagem descortina a cidade ainda se espreguiçando. Rostos inchados, mulheres arrastando chinelos e olhos nas calçadas rachadas de sol, sons preguiçosos de pássaros eternos e o louco da praça, aos berros, revelando aos quatro cantos do mundo, como em toda manhã, que o fim do mundo está próximo:

– Acordem, infiéis!

Um lugar assim sem sol e sem lua, sem diferença entre dia e noite, tristeza e alegria; um lugar assim sem noites e sem luares, sem lados ou opostos, sem extremos e sem arrebatamentos: assim, assim.

Balrures era a cidade do morno, do pouco, do parco, dos dias parecidos e das noites normais, sem calor excessivo ou frio sibilante.

Ali, a lua era opaca, fria e não conseguia inspirar os amantes. Os ventos passavam lentamente e ao rés do chão para não serem percebidos; os barulhos resumiam-se a sons inaudíveis e faziam-se de distantes para que ninguém notasse sua presença.

Ali tudo era eterno, como eterno o ronronar dos gatos que dormitavam sobre as cumeeiras das casas caiadas do final da rua, à esquerda do pequeno coreto, adornado de bancos de pedra com o nome da Farmácia Real tatuado em branco.

A cidade não deveria ter nome, pois a eternidade é inominável e tudo que se pudesse dizer sobre ela cairia no vazio. No entanto, o nome de Balrures surgira como surgem os filhos bastardos: num vazio longo e escuro, corredor sem fim perdido na modorra e no para sempre das tardes sem novidades.

Na margem oposta do rio caudaloso e eterno como os silêncios de Balrures, ficava Barrados, a cidade perene; desassossegada e terminal, humana e sensual, o lugar do não-eterno, da dança e do movimento.

Os maridos e pretendentes das mulheres de Balrures tremiam seus joelhos quando olhavam o calendário e percebiam que já era dia 28. Nestas noites, os moços graciosos e coloridos de Barrados atravessavam o rio e seduziam e mexiam e bolinavam com as moças de Balrures que, fossem solteiras, casadas, viúvas ou mais ou menos comprometidas, conseguiam fugir de suas casas e se esconder entre as moitas da beira-rio, esperando, esperando. E nestas noites, a lua de Balrures purpurinava-se, o silêncio dava lugar a gemidos desavergonhados emitidos entre as moitas da beira-rio, e no dia seguinte, algumas moças balrurenses andavam como que suspensas no ar e mostrando um sorriso que só ostentariam novamente um mês depois.

Os pais de Balrures coçavam as cabeças e miravam o céu mornamente azul, implorando a Deus a dádiva de não serem avós de netos barradenses - a pior notícia que um balrurense poderia ter na sua vida de estio.

Balrures era, infeliz exceção feita nos dias 28 de todo mês, a cidade do não-acontecer. No entanto, num dia estranhamente claro e majestoso de outono, uma moça deu à luz a uma menina de olhos amarelos e felizes. A moça deitara-se nove meses antes com um barradense de lábios grossos, queixo quadrado e fala mansa.

Resultado de uma noite de invasão balrurense masculina, Anelize nasceu como nunca nascem os filhos da cidade eterna: uma vida absurda brotando dos olhos, lábios incendiados, pele que parece sempre estar úmida e movimentos atrevidos de quem não tem tempo a perder com o que se considera no outro lado do rio como bobagens: missa, trabalho, responsabilidade.

Sua mãe, ainda moça, morreria dias depois do parto, sozinha e lívida, pois sangrara até a morte com os olhos enevoados e enxergando nuvens e sonhos que ninguém na cidade jamais conseguiu vislumbrar.

A menina Anelize, nascida e gerada num dia 28 e criada por uma tia louca de nascença pois atirava pedras nos meninos do grupo escolar que passavam pela calçada, tinha desde criança, incrustada no ventre, uma mancha, um nódulo, doença, sei lá, diziam os médicos da época, algo que não suspeitavam o que fosse, e que seria cedo demais para se pensar em cirurgia, abrir a barriga de menina tão nova, tão cedo?, não, esperariam mais para ver se o nódulo se desfazia. O tempo foi passando e Anelize, bela, crescendo colorida, sorriso esparramado e ancas vulcânicas, acordava os gatos e os suspiros de Balrures. Ela sempre dizia:

– Me deitar com barradense, nunquinha! Não vou pelo mesmo caminho de minha mãe. Se algum homem me tiver, vai ser balrurense, e na beira-rio!

De fato, nunca se deitaria com barradense algum, pois Anelize mantinha palavra e isso também todos na cidade das coisas eternas sabiam. Mal sabia ela que nunca se entregaria a homem nenhum enquanto vivesse em Balrures, mas quis se deitar com vários moços nativos. Todos a negaram, não por não desejarem aquela moça mas por não quererem virar desmandados, não cometerem o que qualquer barradense comete todos os dias, onde já se viu? Casamento existia para isso, amor de moita na beira-rio era coisa indigna.

Anelize sentia dores nas juntas e fogos espalhados na pele, ressacas de ventos interiores no ventre e inchaço nos seios quando queria um moço e ele não a queria. Quando isso acontecia, ela passava a noite em claro sentada na beira-rio, olhando com inveja Barrados, na margem de lá, a cidade cujas moças podiam desejar os rapazes da própria cidade sem medo de serem preteridas. E suava, suava desesperadamente nas partes do corpo onde mais percebia a distância existente entre as duas margens do rio.

Um dia, no entanto, Anelize desistiu de tentar e não quis mais esperar. Disse a todos na cidade que engravidaria de sonhos, que engravidaria da lembrança de todos os balrurenses que já desejara e que seu filho seria uma criança sem pai, só com mãe, ela.

Semanas depois, o dito de Anelize mostrou-se profético: sem que ela tivesse se deitado com macho algum, o pequeno nódulo que sempre existira em seu ventre, como que por mágica e despertando a curiosidade de uma junta médica que veio da capital a Balrures pesquisar o ocorrido, transformou-se no que Anelize desejara. Seu primeiro desejo satisfeito na vida, sua filha, balrurense, sem a mácula barradense, ressubstanciando aquela moça de olhos amarelos em mãe e irmã da própria filha que gerava desde seu próprio nascimento e sujando a trajetória perfeita dos filhos daquela terra, nasceu oito meses e meio depois, sem assistência alguma e atrás de uma moita verde na beira-rio.

Um a um, os habitantes de Balrures foram, a partir daquela data, por ironia ou maldição tácita, morrendo de desgosto ou se mudando por vergonha e, pouco a pouco, aquele amontoado de casas e gente passou a ser apenas um amontoado de casas vazias e abandonadas e sem esperança de novamente serem habitadas ou terem seus assoalhos premidos por leitos em noites de amor.

Numa noite sem ventos e sem sons, Anelize, sem que ninguém soubesse, partiu de Balrures e nunca mais ninguém soube do seu paradeiro.

E Balrures, que já não existia como cidade para os moradores das demais em seu entorno, passou a não existir de fato para mais ninguém, pois os gatos deixaram suas cumeeiras, as casas afundaram-se em suas fundações, os meninos fugiram, as moças e velhas e velhos e homens de responsabilidade desapareceram todos, os ventos assolaram as ruas desertas até que não sobrasse pedra, musgo, pingo de chuva, pano ou varal estendido sem roupas para contar a história. Fiquei apenas eu, eterno observador e apaixonado por Anelize, a mulher de olhos amarelos como o sol e como o mel, narrador único desta história trágica e inverossímil e penúltimo habitante a abandonar Balrures, não sem antes ver o coreto ser tragado pela terra junto com o louco da praça que dormitava num dos bancos de pedra e, despertando, começou pela última vez sua cantilena na face da Terra:

– Sumam, infiéis!

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