Invisível

19 Jul 2018

Amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma. Levo comigo este testamento, de fé e de vida. O que adianto é verdade; isto, portanto, não pode morrer. Quem não tem mais que um momento para viver, nada mais tem que esconder. O livre arbítrio é uma graça que traz com ela grandes responsabilidades na vida. O segredo é saber morrer.

Eu sabia que esse dia chegaria, mas não esperava viver para vê-lo se cumprir. Durante muito tempo a seca devastou esta nação. Quando a água desapareceu de suas fontes, o país ruiu junto, espalhando o desemprego, a fome, o medo e a revolta. A poderosa capital paulista tombou quando foi atingida pelo Grande Apagão, que deixou a cidade para sempre no escuro. Reinou, então, as trevas, a ruína e o caos. Os poucos sobreviventes se reuniram em tribos que passaram a guerrear entre si pelo que restou da água: nosso Ouro Azul. A sede era a arma mais destrutível dessa terrível guerra, que ficou marcada como Guerra Azul.

Quando eu escolhi ser parte da tribo Invisíveis, esperava para não participar dos conflitos gerados pela disputa da água. Nossa tribo vivia no submundo, muitas vezes nas antigas estações do Metrô, sobrevivendo do que saqueávamos lá fora. Mas a fome nos ameaçava, forçando-nos a invadir o território inimigo para roubar água e comida.

Desde que a crise da água devastou o país, deixamos de ser uma república e voltamos a ser terra

 

de ninguém. Depois que a ONU descobriu que ainda havia vida neste canto esquecido do mundo, ela passou bimestralmente a enviar seus aviões - Programa Alimentar Mundial - despejando sobre São Paulo sacos de alimento e água potável. É claro que as doações salvam vidas, mas o que realmente é necessário é um esforço internacional para ressuscitar esta nação gigante e dar fim à guerra pela água, restaurando a paz, pois os aviões só despejam sobre a região central da cidade, conhecida como Ruínas, território da mais hostil de todas as tribos: os Filhos da Seca.

Quando Matias, nosso audacioso líder, apresentou seus planos, recusei participar dessa desventura. Porém, me senti constrangido e por resolvi me juntar ao grupo que defenderia nosso povo da fome, encarando dessa forma aquela expedição fadada ao fracasso.

Passamos o dia inteiro próximo à antiga estação de metrô da Sé. Quando ouvi o avião se aproximar, meu corpo foi tomado por uma intensa ansiedade, acelerando meu coração conforme o ruído da aeronave aumentava. De repente aquele pássaro de ferro rasgou o céu e despejou suas migalhas que foram se espalhando. Quando os sacos tocaram o chão, corremos todos de uma só vez. Havíamos planejado bem a ação. Para cada saco de suprimentos, três homens corriam para pegá-lo. Um carregava nas costas, dois outros protegiam. Mas não esperávamos o que depois sucedeu.

Os Filhos da Seca apareceram - como já era esperado - e iniciou-se o conflito já previsto. Socos, pauladas, pedradas de ambos os lados. Diante das paredes da Catedral da Sé o sangue cobria as ruas. Éramos quinze contra mais de trinta Filhos da Seca. Porém, nenhuma das duas tribos esperava a presença de uma terceira tribo nesse conflito.

Bem, que não era uma tribo, pois era mais organizada. Vestia traje militar azul, capacete, escudo e estampavam o brasão da Organização das Nações Unidas. Estávamos diante de uma emboscada planejada por aqueles que nos ofereciam alimentos. Então eu percebi que a mão que afaga é a mesma que apedreja.

Caminhavam em nossa direção marchando e batendo seus cassetetes nos escudos, uma sinfonia que só do inferno pode se erguer, como os passos do predador se aproximando da presa. Enfrentá-los era inútil, e até mesmo os Filhos da Seca partiram em retirada. Eu já estava com um daqueles pesados sacos nas mãos, quando vi se aproximando um dos soldados da Tropa Azul. Eu tinha que escolher entre largar o saco de suprimentos e fugir em segurança, ou tentar fugir com o saco, correndo o risco de ser pego. Escolhi o mais difícil, pois tinha a esperança de levar alimento para minha tribo. Aquele instante tornou-se a minha condenação.

Ainda corria desgovernado quando senti uma forte pancada na cabeça. Tudo escureceu e minha última lembrança foi Matias correndo em segurança. Meu companheiro estava salvo. Eu não...

Acordei num lugar estranho. Sozinho. O vento ríspido tocava meu rosto lembrando-me que ainda estava vivo, mesmo sem motivo para viver. Minha velha roupa havia sido substituída por uma espécie de uniforme azul. Olhei para meu braço e fui tomado por um grande apavoro. Uma cicatriz no pulso direito me deixou angustiadamente aterrorizado. Eu já tinha ouvido falar dos marcados; agora eu era um deles. Aquela marca no meu braço indicava que eu havia recebido um microchip. Eu já tinha lido alguma coisa sobre os microchips há muitos anos. Seria vigiado pelos homens da ONU, que me usariam como isca para chegarem até o resto da tribo e os capturarem para depois marcá-los também, tendo assim um total domínio sobre nós. A Nova Ordem Mundial era real. A Guerra Azul era só o princípio para instaurar a ordem através do caos e obter o controle absoluto da população.

Eu estava condenado a vagar sozinho pelo mundo, correndo constantemente o risco de ser pego por um dos Filhos da Seca que certamente me matariam. Desolado, vaguei nas primeiras horas sem noção do que fazer, sentindo-me um pássaro capturado, engaiolado num canto da cidade e depois solto em outro. Nas soturnas ruas, só era possível ouvir o som dos meus sapatos lentamente se arrastando e se diluindo na escuridão.

Quando me dei conta, estava num beco sem saída. Estava ali, atravessando sozinho, uma região isolada e triste. À minha frente, o prédio nu de construção simples com as janelas - anos atrás arrombadas - como olhos vazios convidando-me a entrar naquele sombrio lugar. Uma ideia arriscada me veio à cabeça. Talvez fosse a única saída.

Adentrei este recinto. Uma antiga oficina mecânica. A pouca luz só servia para indicar um caminho confuso em meio a enorme desordem em tudo. Tudo aqui respira um ar de tristeza, esta que envolve, pairando sobre o local que há anos permanece sem vida. Quando meus olhos se acostumaram com a escuridão, comecei a revirar o local à procura de algo que pudesse me livrar da minha angústia. Sinto como se eu tivesse substituído minha alma por um pedaço de metal. Uma diabólica maldade, longe do meu livre arbítrio. O coração acelerado me fez sentir o sangue pulsando intensamente, passando pelo meu punho condenado.

Revirei o local e confesso que poderia viver aqui por um tempo. A sensação, porém, de ser vigiado não deixava minha cabeça e, neste lugar, no entanto, nada parecia apropriado para dar fim a minha angústia.

De repente escutei um barulho aqui dentro, como se alguém dividisse este lugar comigo. Este ruído de algo que caiu no chão, me fez enxergar um objeto metálico - enferrujado - mas suficiente. Precisava de mais algumas coisas para completar meu plano. Entre os objetos esquecidos neste fúnebre lugar encontrei um castiçal com um toco de vela. Esta é a única luz que tenho e por isso devo ser breve. Encontrei também esta caneta azul e um caderno de páginas amareladas. É nele em que faço minhas últimas anotações. Já tenho tudo pronto ao meu lado, e só me falta à coragem.  Já reservei um pano, uma faixa, álcool e o serrote. Olho o meu pulso e ele ainda pulsa. Será a última vez. Deixarei aqui um pedaço de mim. Depois abandonarei este túmulo e, livre da condenação da minha alma, caminharei por essa cidade, outra vez livre. Com sorte, chegarei com vida até a minha tribo, ou tombarei pelo caminho. Se por acaso você encontrou esta carta ao lado do meu corpo, entenda porque eu mesmo fiz isso comigo: para voltar a ser invisível.

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