A Carta - Um conto de T.C. Oaks

19 Jun 2018

Quando eu era pequeno, morava a duas quadras do cemitério da Vila Alpina, aqui em São Paulo. Costumava jogar bola com meus amigos na praça em frente a necrópole. O nosso maior desafio era o momento em que a bola fosse chutada até lá. Revezávamos quem ia buscá-la.

Numa dessas vezes, eu tive que ir. O final de tarde já começava a se tornar sombrio e assustador. Lembro-me claramente que tentava pegar a bola, mas, a maldita parecia ter vida própria e fugia de mim! Quando finalmente a agarrei e me virei, para correr dali, dei de cara com um caixão aberto.

 A figura mumificada era uma mulher. No entanto o que meus olhos infantis e impressionáveis viram, foi uma criatura apodrecida agarrando a borda do caixão para colocar-se de pé. Recuei aterrorizado já vendo com minha imaginação infantil aquele ser carcomido colocando-se de pé e me perseguindo no seu andar trôpego e pútrido. Eu estava com tanto medo, que não me dei conta da vala aberta.

Mergulhei naquela escuridão, a queda de sete palmos pareceu levar uma vida inteira. Quando acordei, descobri que aquele túmulo, tinha acabado de ser exumado e o caixão retirado. Eu caíra onde antes aquela infeliz apodrecia, mas o estrago já se tornara um fato na minha vida:

Desde aquele fatídico dia, tive medo dos mortos!

Meus amigos sempre zombaram de mim, nunca consegui assistir à vídeos de zumbis e permanecer calmo. Não temia lobisomens, demônios ou vampiros, mas zumbis! Esses sempre congelaram minha alma!

Não revelei isso a ninguém, mas acredite ou não, foi esse medo que me fez rico! Quando meu pai me levava para escola, eu traçava rotas imaginarias de sobrevivência. Analisava os locais que poderia montar como fortaleza, sempre me preparando para o dia inevitável em que os mortos abandonariam suas sepulturas.

O problema que continuamente roubava meu sono era: Como conseguir água, luz, energia e espaço para alimentação num mundo apocalíptico tomado por zumbis?

Foi em meio às aulas de sobrevivência e à faculdade de engenharia que me surgiu a ideia do simple life: um sistema autossustentável excelente e prático. Usando a força da água da chuva e energia solar criei uma espécie de microambiente autônomo. A chance de levar água potável e energia limpa, a regiões carentes da África e do resto do mundo, chamou a atenção de um bilionário Filantrópico. Ele pagou milhões pela minha ideia e minha vida mudou!

Casei com o amor da minha vida: Jaqueline: uma beldade de cabelos escuros e pele cor de jambo, que eu amava muito antes de compreender ou mesmo0 gostar de meninas! Virei uma espécie de celebridade ecológica e tudo parecia perfeito.

Construí uma casa usando meu próprio projeto, mas então, com a desculpa de segurança, construí-a como uma fortaleza! Todos achavam que era para mostrar que o sistema poderia ser aderido à cidade, mas a grande verdade é que fiz aquilo para o caso de um apocalipse zumbi surgisse. Se isso acontecesse, o mundo morreria, mas eu e Jaque sobreviveríamos!

Mas como você bem sabe, já que vive nesse mundo assim como eu, a vida não é perfeita. Na verdade, ela é uma vadia interesseira que espera a hora que você baixa a guarda, para tirar tudo o que você tem.

E foi assim que Jaque me largou pelo personal trainer. Deixei quase todos os nossos bens para ela - inclusive uma fazenda maravilhosa e totalmente autossustentável que compramos em Goiás. Fiquei somente com minha casa-fortaleza na Mooca.

Mudei para esse bairro aos dez anos e sempre amei o local. Então nada mais justo que meu refúgio anti-zumbi fosse aqui.

Depois que Jaque partiu, tive uma depressão severa, que se tornou uma síndrome do pânico. Quando você se sente só, e tem uma casa autossustentável, sair é um luxo do qual você abre mão.

Talvez eu fosse pressionado pelo mundo exterior se não fosse o fato de que ele acabou poucos meses depois. Meu pesadelo criou vida: os mortos retornaram e o pânico se instalou, milhões de pessoas morreram e voltaram famintos por carne humana e imunes a metralhadoras! Foi um caos generalizado!

Eu já vivia trancado, então acompanhei tudo dentro da minha fortaleza, pela internet, televisão e rádio.

Quando a energia parou. Eu escondi a minha, mantendo as luzes apagadas. Longe de mim ter que lutar ou abrigar sobreviventes. Eu era bom no arco e flecha, mas nunca fui bom de briga. Preferia deixar isso com os zumbis. Em meio a conforto e segurança de meu refúgio, vi o mundo definhar ao meu redor.

Bastou um mês! Um único mês e basicamente a vida humana deixou de existir! Todos aqueles que me acusaram, que falaram que eu deveria viver e sair, aqueles que me chamavam de morto vivo, eram agora os verdadeiros mortos. Eu: o fraco, o depressivo, o maníaco, ainda permaneço aqui.

O mais engraçado é que todo mundo buscou informações nos filmes. “Atirem na cabeça!” Eles falavam, mas, isso também foi inútil. Filmes precisam de uma saída. Precisam de uma solução, mas a vida não é um filme.

Deixa eu te explicar uma coisa: Mortos estão mortos! Sendo assim, seus cérebros também estão mortos! Cortar a cabeça de um zumbi não o inutiliza, somente te dá uma cabeça morta viva e um corpo zumbi! Como as unhas das criaturas são tão infecciosas como a mordida, isso somente aumenta o seu problema! Se você for aranhado por um, vai virar um podre assim como aquele sujeito que foi mordido... Descobri que a única maneira eficaz de acabar com eles é queimando ou cortando-os em tantos pedacinhos que se tornem inúteis. Por isso, aí vai uma dica: quando estiver nas ruas mire nas pernas, zumbis aleijados são mais fáceis de despistar do que os que andam!

Isso quando eles não correm! Ao menos os recém falecidos. Aquela imagem clássica, que aterrorizou os meus sonhos, de figuras puídas e com passos duros e tortos hoje é quase um alívio! É fácil fugir desses imbecis! O problema é fugir daqueles que ficavam na academia enchendo o rabo de bomba e agora tem músculos mortos-vivos potentes e não precisam respirar. Eles vão persegui-lo de maneira incansável, não importa o que você faça. Por isso te digo mais uma vez: MIRE NAS PERNAS!

E então talvez você me pergunta: o que eu pretendia fazer? Permanecer trancado na minha casa até morrer? A resposta é: basicamente isso!

Foi matemática simples: o corpo humano leva de dois a três anos para se decompor completamente, meu lar era autônomo então bastava que eu não ficasse doente e entre três a cinco anos, os zumbis teriam deixado de existir!

Fiz algumas explorações em farmácias próximas e hospitais. Peguei uma porrada de antibióticos e outros remédios e novamente me tranquei. Teria vivido feliz assim pelos próximos anos.

Então Jaque reapareceu...

Ou acho que foi ela, recebi um pedido de socorro pelo meu rádio. Isso era comum e eu sempre os ignorava, somente ouvia o aparelho porque às vezes eu ficava de saco cheio dos mesmos filmes e jogos de vídeo game.

A voz era muito parecida, soou como um pedido simples de ajuda, e coordenadas, quando olhei no mapa tive a confirmação de que o pedido vinha de nossa fazenda.

Poderia ser outra pessoa? Sim poderia. Mas também poderia ser ela! E se ela estivesse viva?

Então eu teria uma segunda chance!

A verdade é que Jaque sempre foi o meu vínculo com a humanidade, a razão que me fazia sair de casa, de viver na verdade. Era a única o que me fazia feliz, que me dava um propósito. Quando o mundo ruiu, eu já estava morto, Jaque era literalmente, minha vida.

Então eu fiz algo que jamais imaginei que faria: Arrumei meus suprimentos e parti!

Foi difícil. Os zumbis ainda estão bem inteiros, porém poucos ainda são capazes de correr. A grande maioria está bem-acabada e vai tropeçando por aí gemendo e chiando igualzinho aos filmes que eu tinha medo. Mas que se dane, deles eu consigo fugir!

Eu ando de bicicleta, é silenciosa e mais fácil de escapar das criaturas que um carro, além do mais, não precisa de combustível. Bota uma coisa na sua cabeça, menos é mais nesse mundo! Sobreviva com o mínimo! Vi imbecis se matando por um galão de gasolina e largando uma bicicleta de 32 marchas! Mas carro é igual prostituta amigo: Só faz o que você quer se você der algo em troca!

Andar pela cidade não é tão difícil assim, pior é dormir longe dos muros de casa!

A noite, normalmente, me encolho em algum carro. Prefiro dormir no porta-malas. Fico protegido e “invisível aos mortos” e muitas vezes dos vivos também! Mas o medo é avassalador. Acordar no meio da noite ouvindo os gemidos dessas criaturas ou lidar com o fedor pútrido, onipresente, as vezes beira o impossível. Para piorar eles são atraídos por luz, cheiro ou som, fica difícil fazer uma fogueira desse jeito...

Mas Jaque deve estar lá, em algum lugar, e assim como eu com medo e sozinha...

Por isso mesmo, estou deixando essa carta para você, meu amigo sobrevivente. Seja você quem for. Junto dessa missiva deixo as chaves de minha casa e da fazenda e suas coordenadas. Se você ler isso, saiba que esses dois locais podem garantir sua segurança.

Encontre alguém, do sexo oposto, independente de tudo e procrie ok? Dê continuidade a raça humana! Não podemos morrer!

Estou também deixando com você essa foto polaroid que tirei antes de terminar essa carta, preste bem atenção no que estou vestindo, quando me achar, faça-me um favor e me queime, ok? Essa é a única maneira real de acabar com eles: queimando até as cinzas.

Ache a Jaque, a foto dela também está com a carta; e se ela também estiver o mesmo destino que eu de um fim a ela, por favor!

Fora isso meu amigo: sobreviva, continue em frente e não desista!

Seja lá quem você for!

Boa Sorte!

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