A CEIA DE LÍDIA

12 Jun 2018

"A minha casa é uma casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões!"

(Is 56,7; Jer 7,11)

 

I

Às seis da tarde, Lídia abre o oratório de jacarandá, trabalhado à mão por algum parente artista bissexto, ajoelha-se e reza, contrita, a oração do dia, junto com o moço do rádio - oração que é e sempre será a mesma do dia anterior. Rosário carcomido, herança da avó; joelhos acostumados com a posição ingrata; música tonitroante saindo do rádio; uma voz monocórdia e sem paixão sussurra palavras conhecidas e quase sem sentido na ladainha eterna de todos os dias; do rádio reverbera a solidão intimamente compartilhada por aquelas imagens que remetem a mãe, infância, padres benevolentes, paixões, lenços e adeuses.

 

Sem vícios. Assim aprendeu e assim se manteve Lídia grata, Lídia parca, Lídia santa, Lídia só. Para não mentir em nada, havia um único e pequeno vício que, mesmo assim, adquirira só depois de mais velha: adorava montar quebra-cabeças. E de todos os que já montara, havia um, o escolhido, o melhor, o incomparável, o mais belo: um quebra-cabeças de quinhentas peças que, depois de montado, exibia a Santa Ceia. Ela sabia a seqüência e quais peças encaixavam-se onde.

 

João, Pedro, Bartolomeu, Mateus, André, Judas, Simão, Tomé, Tiago, Felipe... Sabia os nomes dos apóstolos de cór; não apenas os nomes, mas as expressões de cada um na Ceia que definiu o destino do mundo. Decorara as posições e a disposição de cada um na mesa. Montava-o e o desmontava, incansável. Como se ela fosse a artista do quadro: pormenores, detalhes, gestos decorados e matizes de cores - nada escapava da Lídia observadora. Sempre era um prazer montá-lo. Uma oração lúdica que praticava de forma fervorosa e a aproximava de Deus e das coisas boas do mundo , afastando-a do que chamava de perdição.

 

Não gostava dos dezembros. O verão a incomodava, fazia-a sentir-se suja, suada, mortal; lembrava-a de que havia pecados no mundo e, cirurgicamente, fazia brotar suores em lugares do corpo onde, na certa, morava o diabo. Nem mesmo a proximidade do Natal a fazia sentir-se melhor com roupas colando-se no corpo e líquidos proibitivos lembrando-lhe odores de que não gostava de saber que possuía. Desde que Nestor sumiu de sua vida, Lídia nunca mais teve homem. Nisso já se foram vinte e sete anos.

 

Ele saiu de casa à noite - o que não era seu costume - e disse que ia dar uma volta. Eu esperaria até agora, se ainda acreditasse nisso. Já imaginou o que uma mulher sente quando é largada pelo marido? Sem explicações, sem justificativas, sem um beijo de despedida? É como se toda a dedicação, o afeto, os botões cerzidos e os sexos sem vontade fossem, de uma lufada, jogados num balde e deixados naquele sótão escuro que ninguém se aventura a entrar, naquele baú de coisas esquecidas, de que só nos lembramos quando arrumamos a mudança para uma cidade distante.

 

Num canto da sala reina uma árvore de Natal enfeitada e piscapiscando alegre cores e bolas e anjos, aguardando o dia da comemoração do nascimento do Filho - dali há sete dias. Ao lado dela, um presépio colorido de bolas de gude feito pela sua sobrinha Anna, filha mais velha de Margot. A casa velha reclama um mínimo de cuidado. No canto da sala, próxima ao chão, uma mancha provocada por infiltração esverdeia tênue a pintura branca da parede contígua à cozinha de azulejos azuis. Um bolor não pressentido, não percebido. Um novo hóspede, só que sem permissão, imperceptível, divide a casa com a Lídia boa, a Lídia boba, a Lídia só.

 

Lídia decora a casa lembrando nossas tias: móveis grandes, pesados e escuros, tons sóbrios, cores neutras. Espalhados sobre a arca da sala, porta-retratos: Nestor embriagando-se na festa do casamento, as crianças de Margot, a casa de Petrópolis e os mortos da família: Mathilde, Lucina, João, Malvina, Adelaide, Pedro, José. Todos ausentes e presentes ao mesmo tempo, marcando o tempo na saudade que reside posseira em Lídia. Lídia olha aqueles rostos com saudade e inveja, dor e resignação.

 

Depois da liturgia diária, ela senta-se, como todos os dias, em frente ao seu brinquedo: o mesmo quebra-cabeças antigo, de ontem e de sempre, retratando a Ceia, aqueles treze homens que tanto conhecia, que já decorara-lhes as feições. Os treze homens mais importantes de toda a Cristandade. Foi a partir deles que tudo surgiu. Sabe todos os detalhes, mínimos, do quadro; cada angular, cada pormenor, cada sutileza, cada variação de sombra.

 

II

No entanto, naquele dia ocorreu algo novo que julgou serem seus olhos traindo-a novamente. Meu Deus, oculista de novo... Novos óculos, nova dívida, como eu vou me arrumar agora? No canto esquerdo do quadro, bem no meio de uma das três aberturas do recinto em que houve a Ceia, surgiu uma mancha que até aquele dia nunca estivera ali. Talvez fosse o material de seu brinquedo perdendo uma partida para o mundo: uma gota ou outra de chá manchando seu prazer - nada que pudesse impedi-la de admirar seu trabalho de engenheira de outrem.

 

No dia seguinte, entretanto, percebe que a mancha no quebra-cabeças havia aumentado de tamanho e de forma, assemelhando-se com a silhueta de um querubim. Na montagem seguinte do quebra-cabeças, o querubim já tinha as formas bem silhuetadas; e na outra, em progressão, seus detalhes já estavam vivamente impressos no papelão do velho quebra-cabeças: um lindo querubim flutua sobre a cabeça de Bartolomeu - lindo, lindo - e olha para o Filho com o olhar de quem conhece o futuro, se apieda e respeita.

 

Neste mesmo dia, outra mancha aparece, só que na frente da janela oposta do quadro: um querubim gêmeo e também oposto, olhos para o centro da figura, flutuava sobre Simão. O quadro parece que ficou mais bonito ainda e Lídia considerou que aquilo fosse uma bênção de Deus pelos anos de virtude e pela oferenda diária ao Santíssimo em que transformara sua vida. Havia agora no quadro uma luz mais tênue, como se alguém tivesse aumentado o contraste da TV ou diminuído um pouco a intensidade da luz.

 

A Lídia boa transformou-se na Lídia coitada, na Lídia abandonada, na Lídia ao deus-dará. Uma Lídia sem casa, sem marido, sem filhos, sem nada. Na Lídia que nem tinha a si.

 

Sete horas depois, os dois querubins gêmeos estão em todo o seu esplendor, imaculadamente brancos e enfeitando o quebra-cabeças de Lídia - e uma terceira mancha de forma diversa das duas anteriores aparece sobre a mesa. Lídia também percebe um brilho novo e diferente nos olhos dos comensais.

 

III

A montagem e remontagem do quebra-cabeças, que já era constante, passou a ser uma obsessão a macular aquela Lídia boa, aquela Lídia parca, aquela Lídia carola, aquela Lídia santa. Aquela Lídia não se limitava mais a remontar o quebra-cabeças apenas uma vez ao dia, depois da oração das seis: entregava-se àquela brincadeira interminavelmente, num ato de plágio divino, num desmascarar de calendário repetitivo, insistente e irresistível. Deus do Céu!, a oração das seis, há quanto tempo não a fazia?

 

Lídia não perceberia tão cedo, mas a mancha de bolor avançava pelas paredes numa velocidade parasitária, engolindo massas e tintas brancas; azinhavrando pregos e fazendo despencar quadros e porcelanas ancestrais, herdadas de Tia Matilde. E ela numa quase obsessão, numa quase idéia fixa. Lídia dormia pouco, comia o que dava, tomava chá, café e água. Afinal de contas, não tinha sentido gastar uma fortuna nestas pequenas coisas de comer - principalmente quando se perde o apetite. E Lídia montava. E remontava. Curiosa. A cada montagem, as imagens como que bailavam e se organizavam de forma diferente e nova – sempre eram acrescentados pequenos detalhes, insignificantes a princípio, mas que, em poucos dias, iriam fazer parte de uma nova e surpreendente pincelada daquele artista mágico de mãos invisíveis que só os olhos de Lídia enxergavam e apenas com ela se comunicava.

 

Nestor não queria filhos, apesar de Lídia desejá-los. Eles a fariam mulher, a fariam melhor, a fariam eterna.

 

Não sentia apenas orgulho da arte ricocheteada que praticava: sentia medo. Um terror interno e quente, uma onda de fogo que ruborizava, provocava tremores e prazer ao mesmo tempo. Algo nela mudava, como mudavam os detalhes do quebra-cabeças indomável. Iludia-se com o fazer constante daquela arte esquisita e roubada e perdia-se nas horas, rompendo madrugadas e noivando dia e noite. Sentia-se cansada e curiosa, divina e errada, ladra e devotadamente humilde.

 

Surpreende-se num dia, ao olhar o quebra-cabeças recém-remontado pela enésima vez e  perceber que alguns apóstolos tinham deixado cair a túnica dos ombros. Eles revelavam porções de braços musculosos - alguns com marcas de brigas e disputas masculinas. Era isso! Deus lhe presenteava, tornando-a gêmea e parceira do artista. Afinal, o que poderia haver de tão sujo em homens com a parte de cima do corpo exposta? E aquela mancha no centro da sala, o que significava? Que surpresa o Altíssimo estaria reservando para sua serva clemente? Lídia exultava.

 

O bolor do canto da parede espalhara-se pela sala e Lídia percebeu o invasor. Não seria justo interromper aquela obra-prima constante, aquele moto-contínuo de contato direto com o divino, aquela sensação de completude e pavor que lhe afogueava e a fazia sentir-se melhor do que jamais sonhara ser, só pelo capricho de alguns poucos metros de bolor invadindo-lhe a casa. Estava se criando ali uma Lídia melhor para um mundo destruído.

 

Não tinha vontade de nada - centrava as horas, as angústias, as esperas de toda uma vida naqueles pedaços incertos de papelão antigo que mosaicava, autômata, diuturnamente com novas tintas.

 

IV

A figura no centro da mesa - agora ela percebe! - parece-se mais com uma figura humana que com querubins. Uma silhueta maior, volumosa, assoma do quebra-cabeças e ela, artista de artista, aguarda as novas pinceladas que selariam sua parceria interativa, circular. A terceira figura - o terceiro anúncio da paixão.

 

A Lídia parca, a Lídia santa, agora vive gulosa de novos enquadramentos naquele sonho de papel - naquele sonho que ela vê desenhar-se, obedecendo a seus gestos, seus dedos, seus movimentos decorados de encaixe e seus desígnios de artista recém-descoberta e virtuosa.

 

O aposento da ceia agora mostra tintas quentes: matizes insuspeitadas de vermelho mancham a toalha da mesa, como um vinho purificador. Os olhos dos querubins refletem o vinho e tornam-se também vermelhos - de um vermelho tão lindo que ela nunca tinha visto em sua vida - e os comensais estão agora todos desnudos da cintura para cima.

 

Por que Margot, papai? Porque sempre protege a Margot? Sempre eu sou a errada, eu nunca tenho a razão, eu sempre levo a bronca, mãe. Isso não é justo. Sou boa, sou casta. Tô me guardando para o Nestor, a senhora sabe disso. A Margot não. Eu nunca contei para a senhora, mas a Margot, quando diz que vai para a casa da Lurdes, na verdade vai é dormir com o Ernani. Ninguém é santo não, mãe. Só eu, só eu!

 

Dias mais tarde, Lídia percebe que os querubins estão como que descamando, como que encardindo: em algumas partes de seus corpos trama-se um escurecimento maior, tendendo para o negro. Eles também agora sorriem - e sorriem de uma forma que a assusta, de tão maliciosos. Mas a Lídia santa, a Lídia boa, a Lídia parca agora é uma Lídia diferente, mais esperta e mais conhecedora das coisas que ia aprendendo ali naquele quebra-cabeças. Monta o quebra-cabeças e assim remonta as peças do que fora sua vida: cores parcas, emoções santas, amores ilibados, suores perfumados, olhares perdidos e Lídia sempre esperando, esperando, esperando...

 

V

O guarda-roupa sempre arrumado. Meticulosamente organizadas, as calcinhas ficam arrumadas ao lado dos sutiãs e, nas outras gavetas, separadas das peças destinadas e serem íntimas das partes sujas do corpo, as blusas, os vestidos e as poucas calças. Para quê tinha servido a Lídia organizada, a Lídia meticulosa, a Lídia cuidadosa? As roupas haviam-lhe servido durante muito tempo para esconder o corpo indesejado, as dobras adidas, os culotes pouco estéticos e a vergonha. Apercebeu-se que não recebia mais visitas em casa há muito tempo. Então, que serventia há em vestir-se? Nos raros banhos que agora toma, dispensa-se de colocar roupas. Não há o que temer. Ninguém mais entra naquela casa.

 

Senta-se na mesa e monta. Remonta.

 

A mancha no centro da mesa agora delineia-se melhor: parece um corpo de mulher - um corpo bonito, admite para si própria. Belo corpo, o daquela moça. Muito diferente do dela. Tudo no lugar, proporcionalmente distribuído; pecaminosamente perfeito, divino - como se a Lídia santa, agora Lídia invejosa, estivesse cotejando-se no corpo perfeito da mulher ideal da pintura.

 

VI

Um dia ela acorda e percebe-se com a parte de cima do corpo nu deitada sobre a obra. Levanta o corpo lentamente para admirá-la: os querubins, já totalmente negros e com olhares maléficos e espertos, não olham mais para o Filho, mas para a mulher que é desenhada no centro da mesa, enrolada apenas na toalha completamente manchada de vinho. A mulher tem seios lindos e não os esconde. Lídia é como ela. Não teria mais vergonhas nem medos nem angústias nem dúvidas. Ela vive aquele remontar de um mundo que julgava conhecer profundamente. Aquele mundo que foi se transformando num mundo diferente do que ela havia decorado, como se decora uma casa, um lar, uma vida. Vida dela, seios caídos, diferente da vida de Margot, peitos empinados. Vive, talvez pela primeira vez, a busca do belo, do perfeito, do eterno, do divino e do colorido. E aqueles seios eram divinos - e como tudo divino, sua beleza não devia ser impermitida aos homens - treze homens a postos, embriagando-se e com os peitos largos e suados e nus curvando-se para a figura que vinha para abrilhantar a Ceia do Senhor.

 

Como a senhora acha que eu me sinto, mãe?, com a Margot desse jeito se mostrando, já viu o decote dela, que horror? Fez figurinha fácil ontem na festa do Carlindo - e na frente do Ernani! Fiquei irada com aquilo, será que não tem compostura não? E a Anna, coitada? A Margot tem filhos para quê? Para deixá-los para a tia cuidar? Para sair, se divertir, enquanto eu fico aqui tomando conta? A senhora não sabe, mas é muito ruim morar de favor, sabia mãe? A gente está na casa dos outros, não pode reclamar, vira meio que capacho, meio que escrava. Vou me mudar daqui, sabia? Aquela casa do fim da vila ainda está para alugar?

 

Morro de ódio da Margot!

 

A casa já está tomada de musgo e assiste à entronização da mancha de bolor que, usurpadora, apossa-se de tudo, dona única na falta da antiga dona. Paredes úmidas, dona seca. Transfusão que se processa, espelhando um mundo que reside no mundo do papelão de um Michelangelo desmemoriado e ali entregue, dentro de Lídia, à uma última obra - talvez a mais realista de todas.

 

VII

Falta um dia para a véspera de Natal e Lídia encaixa meticulosamente outra versão do seu simulacro avesso de Dorian Gray e sente por dentro algo quente quando vê aqueles treze homens que tanto admira; os treze pilares da Cristandade mostrando-se para ela. Alguns já tinham deixado cair a túnica no chão elameado de vinho e algumas serviçais agora também compunham o quadro, trazendo bandejas, trazendo decotes; trazendo cores, respirações e hálitos, e dividindo os olhares com a mulher deitada na mesa.

 

A Lídia santa agora é a mulher na mesa que, como Lídia, não traja nada, apenas a si, e de si vem aquele cheiro acre que lembra verões e xoxotas e cheiro de bolor, e que banha a sala úmida. A moça luxuriosa da mesa é a única que tem a coragem de se mostrar inteira para quem quiser; é a única que se transubstancia em Lídia e, enfim, nos treze homens, pilares da Cristandade, que, como coiotes, agora pulam, uivando e arfantes, sobre a presa.

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