Conto: Monte Azul

10 May 2018

 

Título:

Achei minha tese de Doutorado!!

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 15/03/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Professor:

 

Pensei muito no que o senhor falou. Falar de meu bisavô não seria nada demais. Só mais um falando do maior industriário brasileiro. Mas cavoucando entre a velha papelada de família descobri algo fantástico: ele teve uma amante!

Foi logo que veio pro país. Ainda vivia em Sorocaba e, embora já fosse um homem rico e famoso, o império era só um sonho distante. Parece que se envolveu com uma funcionária local, estou pesquisando direito, mas, quando descobriu da gravidez, comprou para ela uma fazenda em Minas Gerais, numa cidadezinha, estou tentando ir mais fundo nisso. Assim que achar algo te aviso.

Vou atrás dessa família bastarda e penso em fazer meu doutorado sobre esse lado de meu bisavô que ninguém conhece. O que acha?

 

Abraços

 

Ton

 

Título:

RE: Achei minha tese de Doutorado!!

De:

dante.claudino@usp.edu.br

Data: 15/03/2016

Para:

ton.mtz@gmail.com

 

 

Caro Antônio,

 

Excelente escolha!

Mostrar um pouco do homem falível e (quem sabe) corruptível, contrastando com o gênio empreendedor que foi seu bisavô, com certeza dará uma nova luz ao entendimento de quem foi o grande Francesco.

Embora a história seja recheada de boatos, nunca houve provas inegáveis de uma concubina. Portanto, sua pesquisa seria deveras apreciada no meio acadêmico, uma vez que sua família sempre foi muito reservada em relação ao Conde Francesco.

Provas de uma vida dupla seria magnífico!

Fico no aguardo – Dante.

 

Título:

Ahaaaaa!!!!!!!!

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 21/04/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Demorou, mas achei!!!

 

Realmente existe uma fazenda! Está em nome de uma tal de Iolanda Silva. Meu “biso” comprou em moeda viva e passou tudo para o nome dela. A única coisa que tenho como registro é esta pequena carta do antigo proprietário, um tal Ermenildo Zenite, que segue anexada.

Estou investigando para tentar achar essa escritura à qual ele se refere e saber quem é essa tal de Iolanda.

 

Ton

 

P.S.: O recibo está anexado.

 

Sorocaba, 8 de novembro de 1897

 

Caro Sr. Francesco;

 

Conforme solicitado, envio-lhe a escritura e recibo da compra da Fazenda Monte Azul, em Arraial São José. Ela já se encontra transferida para o nome da senhorita Iolanda Silva.

A propriedade tem uma bela e rentável produção de café e funciona de maneira quase independente. Seu zelador e administrador, um caboclo de nome Otávio, é um homem muito eficaz e honesto, o qual nasceu, vive e trabalha neste local há mais de trinta anos. Trabalhei com seu pai antes dele, o rapaz aprendeu bem e lhe será muito útil.

Embora entristeça-me o coração desfazer-me de tal propriedade, alegra-me saber que ela agora encontra-se em boas mãos.

A doença e a idade não me permitem mais cuidar dela como deveria, e, embora Otávio seja um homem muito capaz, é preciso um certo aporte financeiro para fazer essa lavoura tornar-se mais rentável. Um investimento que, infelizmente, não sou capaz de realizar.

Novamente coloco-me à disposição para sanar qualquer eventual dúvida.

 

Afetuosamente,

 

Ermenildo Zenite.

 

Título:

RE: Ahaaaaa!!!!!!!!

De:

dante.claudino@usp.edu.br

Data: 15/03/2016

Para:

ton.mtz@gmail.com

 

Caro Ton,

 

Como dizia o célebre Joseph Conrad: “nada nos deixa mais aberto à carga de exagero do que a verdade nua e crua”.

Jamais ouvi ou li algo a respeito dessa fazenda. Seu bisavô manteve esse segredo muito bem guardado.

Sabe onde fica o imóvel? Vi o recibo de venda, mas não a escritura.

Você a tem? – Dante.

 

Título:

BINGO

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 26/07/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Dante, conseguimos! Acho que realmente achamos!

Cheguei na cidade de Ituiutaba, em Minas Gerais, no dia 20. Pelo que minha pesquisa me indicou, é aqui que fica a Fazenda Monte Azul. Ituiutaba tem uns 100 mil habitantes e é uma cidade moderna, quase nada existe aqui que seja do século passado. Depois de horas entre caixas de papelão mofadas, achei o que procurava: a escritura da Fazenda Monte Azul em nome de um tal de Ítalo Francisco Rodrigues.

Foi um balde de água fria, quando percebi que o tal ítalo herdou a fazenda no ano de 1943. No entanto, lendo um pouco mais, qual não foi minha surpresa quando percebi que esse tal de Ítalo recebeu a casa de herança de ninguém menos que o senhor Leonardo Silva? Que morreu sem herdeiros e deixou tudo para seu amigo! E tem mais:

Esse Leonardo recebeu a fazenda como herança, por ser o único filho de ninguém mais, ninguém menos que Iolanda Silva! Dona Iolanda faleceu no ano de 1938 e, por acaso, comprou as terras de um certo senhor Ermenildo Zenite no ano de 1897!

Mas a cereja do bolo eu deixei pro final:

No final da escritura, bem no fim da página, na parte reservada para as testemunhas, tem uma assinatura sem nome em baixo. Tirei uma foto e confirmei com o advogado da minha família: é a assinatura do meu bisavô!

Hoje vou até o cemitério. Vou achar o túmulo do meu “tio Léo”.

 

Abraços!

 

Ton

 

Título:

RE: BINGO

De:

dante.claudino@usp.edu.br

Data: 26/07/2016

Para:

ton.mtz@gmail.com

 

 

Ton

Não tenho como expressar o quão magnifico é essa descoberta!

A assinatura de seu bisavô é quase um teste de DNA!

Aguardo ansiosamente novidades do cemitério!

Caso consigamos exumar o corpo, poderíamos fazer um exame e autenticar a veracidade de nossas especulações a respeito da paternidade de Leonardo. Seria fantástico termos a prova inegável de que ele é mesmo o bastardo de Francesco!

Meus parabéns, meu rapaz. Parece que temos não só uma tese de doutorado, mas um verdadeiro achado arqueológico! – Dante.

 

Título:

RE:RE:BINGO

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 27/07/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Dante, você não vai acreditar!

Cheguei ao cemitério um pouco depois do meio dia. O dia aqui estava nublado e meio chuvoso. O cemitério é bem antigo e grande, com lápides altas e deprimentes, abandonadas e vigiadas pelos mausoléus dos falecidos.

Caminhei por entre as lápides abandonadas em busca do túmulo. Levei algumas horas, mas finalmente achei o que procurava.

Foi um pouco decepcionante, na verdade. A lápide é de cimento e muito simplória: somente um quadrado de concreto sem azulejos ou outros detalhes. Nem mesmo uma foto.

Havia somente duas pequenas placas: uma em nome de Iolanda Silva, nascida em 30 de agosto de 1876 e falecida no dia 17 de maio de 1938 – só isso, nada mais; a outra era a mais interessante. Estava em nome de Leonardo Silva, nascido em 21 de abril de 1897 e morto em 17 de maio de 1940. Até aí tudo bem. No entanto, havia uma pichação sobre a lápide. Estava escrito: “Nem a terra aceita receber as pessoas que maltratam seus pais”.

A inscrição era bem antiga, quase tão antiga quanto o túmulo. Boa parte da tinta estava descascada, mas a escrita ainda era visível. Achei curiosa a inscrição e fui até o coveiro para perguntar o que aquilo queria dizer.

Era um caboclo de meia idade, de dentes amarelos e exalando álcool e suor. Ao ouvir minha pergunta, primeiro fez o sinal da cruz e depois virou a cabeça para a esquerda e soltou um escarro enorme. “Esse homem era coisa ruim”, falou para mim. Depois me contou que Leonardo era chegado em mulheres e gastava todo o dinheiro da mãe com as prostitutas da cidade. Ele disse que Leonardo era um mau caráter e um filho ruim. Dizia-se filho de um figurão de São Paulo, mas o coveiro me garantiu que o verdadeiro pai do rapaz era nada mais, nada menos que o próprio diabo, de tão ruim que ele era!

Segundo o coveiro, a mãe morreu da tristeza e dos maus-tratos do filho. Depois da morte dela, Leonardo viveu na gandaia, mas por pouco tempo, porque bateu as botas dois anos depois.

E aí a história fica mais interessante:

Segundo o coveiro, Leonardo “era tão ruim que nem mesmo o capeta quis ele!”. O túmulo estava vazio, porque, segundo o homem, a “terra cuspiu o Corpo Seco de volta!”.

Perguntei o que ele queria dizer com “Corpo Seco”, mas a única coisa que o velho disse foi que “Não se deve mexer com essas coisas. Quando se fala do diabo num lugar como esse, o diabo ouve e às vezes responde” – dá pra acreditar que ele disse exatamente isso?

Pelo menos ele me deu uma informação relevante sobre o paradeiro do tal Ítalo: ao que parece, o homem era um aventureiro. Era apaixonado por viagens e se mudou ainda jovem para a Europa, mas voltava regularmente para cá, pois tinha grande estima pelo falecido. Depois de herdar a fazenda, trancou tudo, foi para a Europa e nunca mais voltou.

Ele tem uma sobrinha que vive aqui perto, Patrícia. Liguei para ela e irei lá amanhã.

Essa história se torna cada vez mais intrigante. Mal posso esperar para encontrá-la!

 

Mando notícias.

 

Ton.

Título:

Essa história está começando a ficar esquisita

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 29/07/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Dante,

São duas horas da manhã. Finalmente consegui me acalmar para escrever.

Hoje foi um dia muito estranho! Fui acordado por um delegado da cidade que me fez algumas perguntas sobre o porquê do meu interesse no Leonardo, e se eu era parente de Ítalo.

Expliquei, muito por cima, que era um estudioso e que meu interesse por Leonardo era profissional. O delegado, embora muito educado, deixou muito claro que eu devia partir e largar essa história.

Incomodado com o tom dele, fui direto e perguntei se havia alguma coisa que eu devesse saber, uma vez que parecia que ele estava me enxotando ou até me intimidando a partir.

O homem ficou sério e começou a me explicar que eu, como todo menino da cidade grande, queria justificativas para tudo – mas que, aqui em Ituiutaba, eles sabiam que havia coisas esquecidas que deviam permanecer esquecidas. Antes de sair, ele me falou que, na verdade, queria me proteger. E finalizou dizendo basicamente o mesmo que o coveiro:

“Cuidado rapaz... Quando a gente fala do Diabo, ele ouve...”.

Era a segunda vez que ouvia aquela frase e reparei que havia um ar de citação nela, como se fosse uma espécie de ditado popular daquela região.

Depois disso, fui visitar a sobrinha de Ítalo, Patrícia. A mulher é um encanto! Tem quase 50 anos e é a típica senhorinha do interior mineiro amável: gorducha, óculos e um sotaque fortíssimo. Passamos a tarde toda tomando um delicioso café e comendo doce de leite caseiro – e, ÓBVIO, muito pão de queijo! Foi uma tarde extremamente agradável, com muitas conversas sobre o Ítalo.

Agora, Dante, esse era um homem que vivia intensamente, ao modo dele...

Foi um grande aventureiro, conheceu o mundo inteiro e sempre viajava a pé. Patrícia tinha diversas fotos dele em cenários maravilhosos: desde os palácios de Angkor Wat ao Taj Mahal, e até as Muralhas da China. Tinha fotos com beduínos do deserto, dervixes indianos e índios Xingu! Sem dúvida foi um homem impressionante. Ítalo faleceu faz 25 anos, em Paris. Patrícia foi muito gentil em me entregar o contato da neta dele.

Acabei ficando para o jantar e lá pelas tantas finalmente consegui que a conversa chegasse em Leonardo. Logo que disse o nome de meu possível parente, o tom da casa mudou. Patrícia, antes tão à vontade, ficou assustada e temerosa.

Disse que não era bom ficar falando desse homem. Expliquei que ele possivelmente era filho de meu bisavô, mas a mulher respondeu que não importava quem era o pai desse homem, porque, desde pequeno, ele havia sido adotado pelo diabo.

Comentei que parecia que todo mundo associava aquele homem ao demônio, e advinha o que ela respondeu?

 

“Quando se fala do Diabo...”. Nem a deixei terminar e emendei: “às vezes ele ouve!”.

 

Pelo menos isso pareceu convencê-la a me contar o que sabia. Ítalo e Leonardo eram muito amigos. Cresceram juntos, frequentavam a escola desde a infância e nunca se largavam. Mesmo mais velhos, quando Ítalo descobriu sua paixão por viagens, Leonardo e ele escreviam quase todos os meses um para o outro. Foi assim até o ultimo dia de vida de Leonardo.

Sempre que Ítalo visitava a cidade, passavam muito tempo juntos. Fosse na fazenda, fosse pela cidade, embriagavam-se e divertiam-se com mulheres e jogatinas: eram dois boêmios!

Aliás, parece que boemia era a vida de Leonardo. Vivia na farra. Arrumava encrenca e maltratava a mãe. Na verdade, segundo Patrícia, maltratava muito a pobre Iolanda.

Dona Iolanda era uma mulher muito boa, trabalhadeira. Veio para cá ainda moça, grávida de Leonardo – seu único filho. Ela e o Seu Otávio, o zelador da Fazenda Monte Azul desde a época do antigo proprietário, cuidavam juntos da plantação de café e prosperaram. Patrícia me disse que a fazenda teria sido grande, se não fosse o jovem Leonardo.

Meu “tio” deu trabalho desde bem jovem. Largou os estudos antes de completar o segundo grau e passou a viver na gandaia. Arrumava briga e confusão, e, depois da morte do Seu Otávio, a coisa ficou ainda pior. Parece que o zelador era o único que o jovem Leonardo temia.

Numa noite, Seu Otávio teve uma briga feia com o Leonardo, que pra variar estava no bordel e foi levado à força para casa pelo zelador. Quando voltavam, o cavalo de Otávio se assustou e deu um pinote. O zelador deu com a cabeça nas pedras e morreu na hora. Pelo menos foi o que Leonardo contou pra polícia, mas Dona Patrícia tem certeza de que foi Leonardo que esmagou os miolos do zelador.

Depois da morte de Seu Otávio, a vida ficou muito difícil pra Dona Iolanda, que já vinha com a saúde debilitada. Como não podia enfrentar o filho, foi trancada em casa, e diziam que Leonardo batia nela. A mulher foi ficando cada vez pior, até que não pôde mais sair da cama.

Por fim, Patrícia me falou que a mulher, pouco antes de morrer, rogou uma praga no filho. Leonardo achou que ia ficar na gandaia e viver da fazenda, mas isso não durou.

No primeiro ano, ele realmente viveu como magnata e gastou muito dinheiro, mas depois desapareceu dentro da casa. Parece que pegou uma doença terrível e morreu sozinho na cama. Quando Ítalo veio da Europa ajudar o amigo, era tarde: achou o corpo do rapaz, seco.

Enterraram-no no cemitério ao lado da mãe. E então, segundo Patrícia, ele não ficou lá.

Quando ia me contar o destino de Leonardo, algo muito estranho aconteceu: um vento gélido escancarou a janela num urro assustador, que fez todos os pelos de meu corpo se arrepiarem. Senti o frio escorrer por minha espinha e fiquei alerta.

Patrícia gritou, correu até a janela e a fechou. Recusou-se a falar qualquer outra coisa e me colocou para fora. Pelo menos, antes de fechar a porta na minha cara, me disse onde fica a fazenda.

Estava decidido a ir até lá naquela mesma hora, mas, então, voltei a sentir aquele estranho calafrio. Tinha certeza de que alguém estava me observando! Olhei ao redor e, no fim da rua, pude ver um vulto de um homem alto, muito magro, que caminhava na minha direção tropegamente. Parecia bêbado. Estava a uns cinquenta metros de mim, na esquina, escorado ao muro alto do cemitério. Estava encoberto pelas sombras. Embora não falasse nada, parecia me chamar. Caminhei em sua direção, decidido a descobrir o que ele queria.

Quando fui atravessar a rua, a luz dos postes tremulou e apagou. Fiquei em completa escuridão. Senti um medo que cresceu em meu estômago, avançou pelo esôfago e entalou em minha garganta. Podia ouvir o passo arrastado e trôpego em minha direção, embalado por uma respiração rascante e sofrida.

Não sei bem te explicar o que senti naquele momento. Algo tomou conta de minhas pernas, de modo que fugi daquele local num pânico irracional. Quando me dei conta, já estava no hotel! Estou aqui trancado desde então. Tenho que admitir que nunca senti tanto medo na minha vida.

Amanhã, quando estiver claro, vou visitar as ruínas. Tenho que seguir pela 464 até achar o Ribeirão São Lourenço. Lá tem uma estrada de terra à esquerda. Subindo o morro, chego às ruinas da fazenda. Mas, segundo Patrícia, se eu amo minha vida, eu não devo ir até lá!

Ton

 

Título:

RE: Essa História está começando a ficar esquisita

De:

dante.claudino@usp.edu.br

Data: 29/07/2016

Para:

ton.mtz@gmail.com

 

 

Querido Ton,

Admito que a situação é deveras estranha, no entanto devemos tentar analisar os fatos mais sobriamente: você vem há dias imerso nessa história e creio que talvez sua mente esteja lhe pregando algumas peças. Entendo sua apreensão, mas acho que você se deixou levar pela superstição local. Lembre-se: você está numa cidade que, embora grande, ainda mantém as crendices interioranas e antiquadas do nosso folclore. Acredito que houve diversas coincidências que acabaram por culminar com seu contato com um indigente; não creio que tenha sido uma criatura do além-túmulo!

Acalme-se, meu rapaz, a vida é feita de fatos, afinal. Confesso que você terá um enorme trabalho para diferenciar o que é lenda e o que é fato nessa história toda, mas deveria usar um pouco disso na tese. Daria um aspecto muito curioso.

No entanto, devo adverti-lo para ter cautela. Acredito que você deveria se afastar um pouco e deixar essa história de lado – Dante.

 

Título:

RE: RE: Essa História está começando a ficar esquisita

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 29/07/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Meu caro Dante, você tinha razão. Devo ter assustado o mendigo mais que ele me assustou. Esse povo do interior sabe contar histórias!

Bom, vamos falar sério: acabei de voltar da fazenda (não consigo me afastar ainda).

Foi uma viagem interessante. Cheguei em uns 45 minutos lá. A 464 é uma estrada de terra, então fiquei meio confuso inicialmente. Chegando perto do rio, vi as estátuas de dois leões, que marcavam a entrada da estrada para às ruinas.

A estrada era bem antiga e quase intransitável, mas o carro aguentou bem. Se soubesse que ia fazer uma viagem pela mata, teria alugado uma SUV.

Cheguei até uma porteira grande e pesada com a placa de “propriedade particular: não entre” na frente. Obviamente desrespeitei aquilo e pulei o portão.

Foram mais uns 10 minutos de caminhada, até chegar à entrada da construção.

A fazenda deve ter sido bem imponente. De construção sólida e típica da arquitetura colonial brasileira, as paredes eram brancas, eu acho, e as janelas e portas, azuis. A tintura se desfez quase por completo e grande parte do gesso também já foi deteriorado, mas a casa permanece de pé. É um minicastelo, isso posso dizer, formidável mesmo em toda sua decrepitude. Há uma bela fonte na entrada, mas deve ter secado há muito tempo, e sua estátua principal está quebrada. Acho que era um querubim.

Caminhei pela propriedade, mas não consegui entrar na casa em si. Todas as portas estavam fechadas com correntes. Até tentei, mas não consegui arrebentá-las. Para um local abandonado, até que está bem conservada.

Admito que senti um incômodo naquele local, como se estivesse sendo observado. Mais de uma vez, parecia que havia alguém me vigiando em cada passo. Mas, depois de um tempo, deixei isso de lado.

Estou seriamente pensando em tentar entrar em contato com a neta do Ítalo. Preciso muito entrar na casa.

Bom, vou arrumar minhas coisas. O delegado está lá no saguão, querendo falar comigo. Acho que já não sou muito bem quisto nessa cidade. Devo ir para Belo Horizonte ainda hoje e tentarei pegar um voo amanhã cedinho para São Paulo e conversamos melhor pessoalmente.

 

Um abraço

 

Ton

 

Título:

Um imprevisto

De:

ton.mtz@gmail.com

Data: 29/07/2016

Para:

dante.claudino@usp.edu.br

 

 

Ficarei mais uns dias.

Dona Patrícia morreu.

Foi isso que o delegado veio me informar. Não sei a causa, mas ele estava muito estranho. Disse que ela foi acometida de um “mal súbito” e veio a falecer. Não estou sendo investigado, embora desta vez o delegado tenha sido enfático sobre a importância da minha partida. Disse que algumas pessoas poderiam achar que eu tinha algo a ver com isso. Estou indo para casa nesse momento, mas, antes, queria te relatar algumas coisas muito estranhas.

Fui ao enterro pela manhã, e lá foi muito desagradável. Logo que cheguei, estranhei o fato de o caixão estar lacrado. Não era possível ver a Dona Patrícia. Eu me perguntava o que acontecera, quando uma mulher que estava ao lado do caixão chorando muito me viu. Era uma senhora, possivelmente amiga de Dona Patrícia. Ela apontou o dedo ossudo em minha direção e gritou a plenos pulmões: “A culpa é sua!”.

Olhei confuso e desconcertado para ela, que gritou mais uma vez:

“O Corpo Seco a levou, e é tudo culpa sua!” – urrou enlouquecida. Outras pessoas a tiraram de lá. Senti-me péssimo. As pessoas me olhavam torto, então me afastei e fui embora.

Pelo caminho, decidi beber algo numa padaria jeitosinha, perto da igreja, e acabei entreouvindo uma conversa entre dois caboclos que falavam com o cara do boteco. Um deles tinha um conhecido no IML e falou que a Dona Patrícia foi encontrada completamente ressecada! Segundo ele, até os olhos estavam murchos que nem frutas secas. Então, disseram que foi coisa do tal “Corpo Seco”.

Mais uma vez esse nome...

Indaguei o que raios era esse “Corpo-Seco” de que todos falavam, e me arrependo profundamente por isso, pois nessa hora eles deram conta da minha presença. Como selvagens, partiram para cima de mim com acusações e xingamentos. Até uma garrafada na cabeça eu levei, enquanto eles repetiam incessantemente duas coisas:

“Você despertou ele, despertou o Diabo!”.

E também:

“Nem a terra aceita receber as pessoas que maltratam seus pais”.

Fui salvo pelo bendito delegado, porque acho que teria sido linchado pela população local. Fui então escoltado para o Hotel, onde encerrei minha conta. Agora vou para Belo Horizonte.