Era Todo Ouvidos (ou O Ouvidor Real)

10 Apr 2018

Depois de décadas de tirania, o imperador e rei estava finalmente morto. O anúncio, feito pelo porta-voz da Coroa, do púlpito do Palácio, foi recebido pela multidão com silenciosos vivas. Era o fim de uma era.

 

O imperador não deixara filhos. O trono estava vazio. Com apreensão, aguardava-se o nome do sucessor. Pelos corredores do Palácio, especulava-se, aos cochichos, quem seria o dito-cujo. Em seu testamento, Sua Majestade, sem explicitar os motivos, deixara o trono ao menos cotado da Corte: o ouvidor.

 

O novo imperador, ao falar, pela primeira vez, à multidão, prometeu novos tempos. O discurso foi ouvido com intensos aplausos e sonoros vivas. E como não ver o amanhecer com sorriso nos olhos, quando nosso futuro está nas mãos daquele que sempre nos ouviu, mesmo quando a ordem era endurecer?

 

Como ouvidor, do nascer ao pôr-do-sol, do primeiro ao último das filas que se formavam em volta do Palácio, por todos aqueles anos, ele recebia, um a um, em sua sala, e ouvia com atenção, as mais distintas queixas e lamúrias.

 

Um dia, um triste acontecido fez-me ir até o mais novo imperador. Como sempre, do fim da fila, não se viam as portas do Palácio. Terminada a longa espera, contei a Sua Majestade que um dos seus homens, ao coletar impostos, me levou além do devido. Dos cinco sacos de estopa cheios de frutos que eu colhera por aqueles tempos, deixou-me, não os quatro, como de costume, mas tão só um.

 

Como eu esperava, o imperador, demonstrando insatisfação com o que ouvira, mandou chamar o tal homem. Cobrou-lhe explicações e o repreendeu na minha presença. Por fim, ordenou-lhe que me devolvesse o que era meu por direito.

 

— Sim, Majestade — acatou o súdito, sem levantar a vista.

 

O homem foi lá dentro e, antes que voltasse com minha colheita, agradeci ao imperador o que fizera. O coletor de impostos devolveu-me meus quatro sacos de estopa, aparentemente vazios. Olhei dentro e não vi mais que dois ou três frutos em cada um deles. Desconcertado, sorri um sorriso amarelo e pensei: “Se fossem outros tempos, nem isso eu teria.” Voltei para casa, com os sacos de estopa quase vazios sobre os ombros.

 

— Para começar, está bom. Vai melhorar — disse eu a mim mesmo, resignado.

 

Não tardou muito e aquele triste episódio me voltou a acontecer: o coletor de impostos levara-me novamente mais do que devia. Aliás, dos cinco sacos de estopa com frutos, agora ele me deixara a mísera metade de um dos sacos, e não um saco repleto de frutos, como outrora.

 

Tomado pela ira, repeti o ritual. Fui ao Palácio. Após enfrentar a interminável fila, relatei o ocorrido ao imperador, que esbravejou indignado contra o coletor de impostos, que, por sua vez, sem levantar a vista, me trouxe meus sacos de estopa vazios, ou quase.

 

Enquanto o homem fora pegar o imposto a mais que de mim coletara, pude ver, pela porta entreaberta, a sala de jantar do Palácio. A mesa estava posta. Deduzi que a ceia já esperava o imperador. Olhei com mais atenção e meus olhos encontraram, entre as iguarias à mesa, grande porção dos frutos que eu mesmo colhera e que me foram tomados indevidamente. Compreendi que o imperador não só sabia dos atos reprováveis do coletor de impostos, como era o principal beneficiário deles. Foi aí que não consegui mais conter minha ira.

 

— Majestade... — da minha boca escapulia o vocativo real.

 

— Pois não, súdito meu.

 

— Perdão, Senhor, mas preciso lhe dizer algo que me incomoda e o atinge diretamente.

 

— Sou todo ouvidos e assim será. Fale.

 

Como me fora concedido o direito à palavra, externei o que notara e as impressões acerca das injustiças que me eram infligidas, sob as barbas do imperador.

 

— Desde já, entristece-me, Majestade, pensar na possibilidade de que, aquele em quem depositamos nossas esperanças, tornou-se nosso algoz. Dói-me menos a barriga vazia que tomar ciência de que vossos banquetes sejam regados pela nossa fome; que vossa gula se alimente da nossa carência; que o que sobre em vossa mesa, nos falte; que, daquilo que Vossa Majestade esbanje, nos restem não mais que migalhas; que vosso deleite seja nossa dor.

 

​​​​Acreditava eu que, sendo o imperador homem tão justo, reconheceria as próprias falhas e repararia os malfeitos. De seu lado, Sua Majestade não desviou o olhar, tampouco me interrompeu uma única vez. Seu semblante conservava-se sereno o tempo todo. Após ouvir meu desabafo, chamou a guarda e voltou a me escutar: aos berros, eu clamava que cessassem em mim aquela horrenda tortura, em vão. Implorei que, ao menos, meus carrascos abreviassem minha dor e me matassem sem demora, mas eles não me deram ouvidos.​

 

​Não bastassem os socos e pontapés por todo o corpo, por fim, cortaram-me a língua. Minha boca já não articulava palavra alguma: agora, eu era, tão só, medo, sangue e dor. Como bom ouvinte que sempre fora, o imperador ouvia tudo de perto. Ouviu-me até o fim. Até meu fim, foi todo ouvidos.

 

* Este conto foi selecionado para publicação pelo I Edital da Revista Literária Digital Motus (Movimento Literário Digital) e pode ser encontrado também no blog O Estado da Arte de Aldenor Pimentel.

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