A linha

23 Mar 2018

 

 

"Existe uma lenda no oriente que diz que as pessoas destinadas a se conhecerem têm uma linha vermelha amarrada em seus dedos. Esta linha nunca vai embora e fica constantemente amarrada, apesar do tempo e da distância. Não importa o quanto demore para conhecer essa pessoa, não importa o tempo que você passe sem vê-la, e também não importa se vive no outro lado do mundo: o fio estica-se ao infinito, mas nunca se parte.

Este fio está com você desde seu nascimento e te acompanhará, em maior ou menor tamanho, mais ou menos emaranhado, ao longo de toda sua vida. Assim, o Avô da Lua sai toda noite para se encontrar com os recém-nascidos e amarrar uma linha vermelha em seu dedo, uma linha que vai decidir seu futuro, que irá orientar estas almas para que nunca se percam..."

 

São Paulo – Aeroporto de Guarulhos 

Voo Guarulhos x Rio de Janeiro, manhã de ano novo

 

Eu posso dizer que não sou do tipo que leva a vida suspirando pelos cantos, afinal não dá para se viver só de amor, mas sinto um pouco de inveja de algumas amigas que na minha idade já tem um relacionamento instável... Ok, sem melodramas típicos de novela mexicana, eu prefiro focar em meu trabalho. E por falar nele, aquele era o primeiro dia de uma viagem que me levaria à cidade do Rio de Janeiro, trabalho em uma editora e iria representar um novo autor que diziam ser mais novo fenômeno de literatura, seria sua redatora e assistente junto à nossa empresa.

 

Voo 302 para Rio de Janeiro, portão 2, ala norte

 

A voz no alto falante anunciou a minha ida à Cidade Maravilhosa. Confesso que tive certo receio e senti um frio na barriga quando entrei no avião. Seria meu primeiro trabalho sério, ao qual poderia crescer profissionalmente e ganhar certo status na Editora, que era uma das 5 maiores da América latina. O voo fora tranquilo e logo que cheguei me dirigi rápido ao hotel. Depois de tomar o táxi e estar instalada, fui ansiosa fazer a chamada e marcar o encontro com esse novo autor Carlos Godoy, romancista de literatura fantástica e terror.

— Bom dia, sou Angela Tanaka, poderia falar com Carlos Godoy?

— É ele quem fala.

— Sr Godoy, sou representante da editora e serei sua assistente e redatora junto à nossa empresa, podemos marcar uma reunião?

— Claro, mas hoje não. É dia primeiro, ano novo.

— Compreendo, poderia ser amanhã?

Eu senti que ele não estava muito disposto a esse encontro, já ouvira falar que era um tanto cheio de manias e que na maior parte do tempo gostava de estar na praia. Eu suspirei e esperei a resposta que veio em seguida.

— Srta Tanaka, eu prefiro que deixe para sexta-feira. Diga-me, não comemorou o ano novo? E sua família, amigos...?

— Eu comemorei sim, Sr Godoy, mas preferi vir logo ao Rio de Janeiro para adiantar o cronograma e, claro, a data do lançamento de seu novo livro, que já foi marcada para daqui a 3 meses e pelo que entendi ainda não terminou de escrevê-lo.

— Não irei terminar hoje... — Riu baixo na linha. — Vamos relaxar, na sexta-feira conversamos pessoalmente, lhe mandarei um "zap", certo?

— Sim, ficarei no aguardo.

— E não espere tanto, vá conhecer a cidade e se divertir um pouco.

— Assim que terminar o trabalho farei isso, obrigado pela sugestão, bom dia!

— Trabalho?! Garota, é ano novo, vá curtir um pouco... — Sorriu e encerrou a chamada.

Eu definitivamente teria que ter muita paciência com aquele autor, simplesmente me mandou largar o trabalho e me divertir, fiquei levemente irritada com aquilo. Soltei o ar dos pulmões, estava tensa durante toda ligação e quando dei por mim o Sr. Godoy encerrara a chamada. 

Levantei da cama e fui à janela, o dia estava realmente bonito e pude ver o mar do Leme, algumas pessoas andavam fazendo caminhada no calçadão. Pensativa, continuei observar pela janela do quarto do hotel e, como ele sugerira, talvez uma caminhada fizesse bem. Iria relaxar. Não adiantava ficar esperando, somente na sexta-feira iríamos nos encontrar, ainda era quarta-feira e eu tinha dois dias para visitar a cidade. E lá estava eu andando no calçadão de pedras portuguesas quando teve início o meu pior pesadelo.

Aconteceu tudo muito rápido, uma correria e pessoas se jogando na areia, gritando "tiros". Eu não sei ao certo de onde veio, mas senti um baque acertar minha cabeça e um líquido quente escorrer na minha testa, minha visão ficou turva e notei tonta o céu girar, apaguei ao cair no chão.

 

Três meses depois...

 

"O que é isso?"

Minha cabeça latejava. Tentei abrir os olhos, porém a luz forte me incomodava. Por Deus, onde estava? Esforcei-me para levantar o braço e lentamente passei a mão em meu rosto, quase sem forças deslizei pelos meus cabelos. 

Confusa, notei um vulto se aproximar de mim. Seu contorno conforme chegava mais perto ganhava uma forma definida, sabia que era uma mulher, porém não consegui identificar até que parou ao meu lado e falou algo que levei uns segundos para compreender, até que por fim reconheci de quem era a voz.

— Angel, minha Angel, finalmente acordou.

A voz doce e chorosa me deu tranquilidade.

— Okaasan, onde... onde estou?

— No hospital.

— Hospital?! — Virei o rosto para ela, confusa.

— Você foi baleada, ficou em coma... — A mulher suspirou aliviada e continuou a falar comigo. — Mas tudo correu bem e agora está acordada, finalmente minha filha acordou. — Aquela mulher de cabelos castanhos curtos e face envelhecida tinha os olhos marejados quando tocou meu rosto.

 Suspirei baixo e tentei me lembrar naquele momento, mas nada vinha em minha mente. Fiquei ainda mais confusa e fechei os olhos respirando devagar para me acostumar com a claridade, minha mão tocou os curativos na minha cabeça e foi naquele momento que notei algo em meu dedo, uma linha vermelha amarrada.

— Okaasan, o que é isso? — Estendi a mão e a linha vermelha escorria para fora da cama. Não consegui ver seu fim, mas conforme mexia a linha não soltava. — Essa linha vermelha amarrada no meu dedo, de onde veio?

Minha mãe me olhava confusa e segurou a minha mão com carinho.

— Angel, não posso tirar o soro, você precisa para ficar forte.

— Não, okaasan, no meu dedo, tira essa linha daí, está amarrada no meu dedo.

— Linha?! — Ela olhava-me confusa. — Descansa, deve ser alguma confusão de sua mente, deve está confundindo com o estêncil do soro.

— Não... Eu... — Resolvi puxar e nada de soltar. — Não sai...

— Minha filha, fique calma, vou chamar uma enfermeira, não pode se agitar.

Às pressas vi minha mãe sair do quarto enquanto eu lutava com aquela maldita linha vermelha. Pouco depois a enfermeira veio e tentou me acalmar, levou uns minutos até conformar-me que somente eu via a linha amarrada em meu dedo mindinho.


 

1 ano depois...

 

O ano que passou foi muito desgastante. Após a minha recuperação, sem sequelas (que para os médicos fora considerado um milagre), ainda passei por um longo tratamento já que desenvolvi síndrome do pânico. Como disse, aquele dia foi o início de um período muito conturbado para mim e até da editora precisei me afastar. Porém, o que me frustrava era ter que fingir que estava tudo bem em ter aquela linha que ninguém além de mim via.

A linha que ficava sempre presa em meu dedo e seguia ao infinito. Durante os primeiros meses foi o que mais preocupava minha família, todos começavam a crer que estava apresentando algum distúrbio devido ao tiro na cabeça. Até eu mesma comecei a acreditar nisso, contudo o tempo foi passando e me acostumei a vê-la e não ligar mais para ela. 

Finalmente resolvi tomar as rédeas de minha vida e voltar ao trabalho, então o primeiro dia na editora foi acolhedor, todos foram muito compreensivos comigo e fui recebida de forma agradável. Estava fazendo serviços simples de início, quando recebi recado que havia uma chamada. Ao atender, fui surpreendida pela pessoa mais improvável que poderia imaginar.

— Srta Tanaka, Carlos Godoy. Espero que se encontre bem e... — Ouvi uma pequena pausa. — Enfim, estou ligando para podermos marcar uma reunião.

— Sr Godoy, que surpresa, sim encontro-me bem. — Inspirei e fiquei tensa novamente. — Sim, claro, podemos marcar uma reunião, para quando deseja?

— Eu gostaria que fosse o quanto antes, pode ser hoje à tarde? — Ele voltou a fazer uma pausa, esperando minha resposta. — Claro, se não for incomodar.

— Sim, eu... – Procurei minha agenda. — Às 15 horas, está bom o horário e pode ser aqui na editora?

— Perfeito, estarei na hora marcada, até mais tarde!

Logo que desligou voltei às revisões, no entanto, pensativa. Qual seria o motivo dele querer conversar, já que não era mais a assistente e revisora dele? Deixei aqueles pensamentos de lado continuei meu trabalho. 

Após o almoço aguardei a sua chegada. Em minha mesa, estava distraída quando a linha começou a mexer esticando-se em meu dedo. Olhei a minha mão um tanto confusa e depois as pessoas em volta. Assim que notei que ninguém olhava para mim, escondi a mão embaixo da mesa e comecei a me sentir insegura. A linha repuxava e por vezes ficava estendida e depois frouxa.

— Ângela?! — Munique, uma colega de trabalho, olhava-me estranhando, pois estava em minha frente me chamando e eu não lhe dava atenção. — Ângela?! — Apoiou a mão na mesa e foi quando a notei. — Está tudo bem?

— Ah?! É que... Ah sim, está tudo bem sim, só me distrai com algumas coisas que me pediram para fazer.

— O escritor Carlos Godoy está lhe esperando. — Munique ainda me olhava com expressão preocupada.

— Obrigada, Monique, vou encontrá-lo.

Levantei e rapidamente fui até a sala da recepção para encontrá-lo.  A linha se estendia à minha frente praticamente marcando o caminho, antes eu não via até onde ela ia, mas daquela vez era como se mostrasse para onde ir. Assim que cheguei à sala de recepção meus olhos arregalaram-se. O Sr. Godoy estava de pé e a linha ia até ele. Olhei-o principalmente para onde a linha terminava: no bolso de sua calça, onde ele tinha colocado uma das mãos. Voltei a inspirar fundo, nervosa, e com muito custo lutei para não deixar notar meu nervosismo. 

Esforcei-me para não demonstrar aquela sandice, abri um sorriso suave e de certa forma tímido para cumprimentá-lo. Estendi minha mão, que era a que tinha a linha amarrada. Ele tirou a mão do bolso e apertou a minha. Aquele aperto de mão foi ainda mais surpreendente, a linha tinha fim, a outra ponta estava amarrada no dedo mindinho do homem a minha frente. Eu fiquei parada, olhando confusa e segurando a mão dele tentando entender se estava realmente louca.

— Está tudo bem, Srta Tanaka? — Ele olhava-me ainda segurando minha mão.

— Sim, está tudo bem. — Sorri a ele sem jeito e soltei sua mão. — Seja bem vindo, Sr Godoy. — Senti-me estranha já que foi uma sensação de conforto ao tocar a mão dele naquele cumprimento. 

— Obrigado pelas boas vindas, fico feliz em estar aqui. — Ele me fitou com uma expressão preocupada. — Está tudo bem mesmo, Srta Tanaka? 

Como quem acordasse de um transe, pisquei os olhos algumas vezes e com um sorriso sem graça curvei ligeiramente o corpo para frente no típico cumprimento oriental.

— S-sr Godoy, desculpe, estou um pouco distraída hoje. Então, vamos à sala de reunião? — Apontei o caminho. 

Fui um pouco à frente sendo seguida por ele. Eu não conseguia entender, aquela maldita linha estava nos ligando e, por mais que fosse loucura, eu buscava explicação e nada vinha à minha mente. Quando entramos na sala e nos sentamos, eu o analisei. Era jovem e sua aparência despreocupada, um homem alto e de pele queimada de sol, apesar de ser branco. Sorri novamente sem jeito e comecei aquela conversa perguntando:

— Sr Godoy, o que deseja conversar comigo? Afinal, pelo que sei, o senhor tem outro assistente.

— Primeiramente quero lhe pedir desculpas sobre aquele lamentável dia a um ano atrás. — Ele parecia desconcertado em falar sobre aquilo. — Sinto muito, realmente não...

— Sr Godoy, não precisa se preocupar. E o que aconteceu, aconteceu. — Eu estava cada vez mais sem jeito. Além daquela maldita linha nos ligando, havia um homem se desculpando por aquele maldito dia, com uma expressão de pesar na face.

— Eu estava muito preocupado e precisava falar com você, me senti culpado por ter lhe mandando sair mesmo sabendo que a cidade não é tão segura. — Ele sorriu compadecido comigo e aparentava certo alívio ao me ver bem. Levantou-se voltando a olhar em meus olhos.

— Não precisa sentir-se culpado, foi um incidente, não havia como saber que bandidos estavam trocando tiros com a polícia depois de assaltar a região. — Ergui a cabeça vendo-o se levantar. — Ah?! — Ele tomou o rumo da porta demonstrando que estava de saída e segui com olhar. — Era somente isso que veio falar?

— Sim, o que mais poderia ser? — Ele sorriu no canto dos lábios e abriu a porta. — Espero que tenha uma ótima vida, aproveite-a. — E saiu sem nem me deixar falar algo.

Levantei e o segui um tanto intrigada, a linha estava ali ainda nos unindo, mas conforme ele se afastava de mim, ela esticava.

— Sr Godoy, eu... Queria lhe perguntar algo, mas... — O segui até a recepção da editora.

— O que seria? — Ele olhou para mim pegando os óculos escuros do bolso de seu paletó.

— Eu... — Olhei a mão dele com a outra ponta da linha amarrada. — Eu... — Pensei rápido. — Eu gostaria de poder voltar a ser sua assistente representante junto à editora, poderia ter uma chance novamente?

Ele olhou-me um tempo e depois abriu um largo sorriso.

— Seria bom, mas já tenho um representante, então...

— Ah sim, entendo. — Estendi a mão para me despedir, ele a segurou e ambos os dedos amarrados voltaram a se juntar naquele breve cumprimento de despedida.

— Boa tarde. — Soltou minha mão e saiu.

— Boa tarde.

Fiquei ali parada vendo-o sair e a linha se esticar seguindo à frente e sumindo conforme ele já não aparecia mais no meu campo de visão. Acompanhei cada momento dele afastando-se, tentando entender aonde a linha iria parar. No entanto, sua ponta final mostrou-se como sempre sem fim, conforme o Sr Godoy partia. Voltei para a minha mesa olhando a minha mão, com aquela linha vermelha que continuava ali e várias perguntas na mente. 

Por que estava ligada àquele escritor? Por que me senti estranhamente bem ao segurar sua mão? Não queria pensar naquilo, mas a cada vez que olhava a minha mão, um pequeno desespero começava a surgir e diversas perguntas sem resposta tomavam-me a mente.

Naquele mesmo dia no final do expediente recebemos uma péssima notícia, um dos nossos redatores e assistentes precisou se ausentar das suas funções devido a uma doença e não havia comunicado até passar mal em um restaurante. Foi lhe dado toda assistência e quando cheguei à editora foi informado que assumiria algumas das funções lhe eram atribuídas. Eu não havia acordado bem, pouco depois de chegar tive uma leve crise de ansiedade, resultado da síndrome do pânico que atualmente estava um tanto controlada e sendo tratada com remédios e consultas periódicas ao psicólogo.

Estava exausta e sentei-me, quando Munique veio me avisar que o chefe marcou uma reunião na parte da tarde e que eu estaria participando. Não tardou muito fui até a sala de reunião principal e, ao entrar, a linha amarrada em meu dedo se esticou. Olhei minha mão e depois os demais na sala, meus olhos foram diretamente aos dele. Fiquei muda e não consegui desviar dele, Carlos estava elegante com seu sorriso no canto dos lábios e jeito despojado.

— Ângela, sente-se. — Alfredo, meu chefe, mostrou o lugar. — Não preciso de formalidades em apresentações, sei que se conhecem, certo?

Fiz um gesto que sim ao me sentar e sorri.

— Ângela, como vai? — Carlos me olhava de um jeito diferente, mais intenso, que me deixou desconcertada.

— Bem, Sr Godoy.

— Ângela, estamos muito felizes com os livros que Carlos tem escrito e agora faremos o lançamento internacional nos Estados Unidos. O Sr Godoy pediu que fosse você a assistente acompanhá-lo nas representações na filial de Nova Iorque.

— Nossa, mas... — Olhei para Carlos, que sorria para mim. — Eu vou... Claro, vai ser ótimo. — Não sabia o que dizer apesar de ver a expressão um pouco insatisfeita do meu chefe. — Irei representá-lo e fazer o meu melhor junto à editora.

— Ótimo. — Alfredo olhou o outro homem. – Vou deixá-los para acertarem os detalhes enquanto faço os comunicados junto à filial. — Se levantou e nos deixou na sala de reuniões a sós.

— Eu estou surpresa, mas grata por escolher-me, afinal não tenho muita experiência junto aos autores.

— Posso lhe contar uma história? — Ele apoiou os cotovelos na mesa e ainda sorrindo ficou me olhando.

Pisquei os olhos algumas vezes por ser interrompida de repente, o máximo que pude reagir foi dar de ombros e confirmei com a cabeça.

— Há muito, muito tempo atrás, um imperador ouviu que em uma das províncias do seu reino vivia uma bruxa muito poderosa que tinha a capacidade de ver o fio vermelho do destino, e mandou trazê-la a sua presença. Quando a bruxa veio, o imperador ordenou-lhe olhar a outra extremidade do seu fio e levá-lo para quem seria sua esposa. A bruxa concordou com este pedido e começou a seguir o fio. Esta busca os levou a um mercado, onde uma pobre camponesa com um bebê nos braços oferecia seus produtos.  Ao chegar onde estava esta camponesa, se colocou frente a ela e convidou-a a ficar de pé. Quando o jovem imperador se aproximou, a bruxa disse: "Aqui termina a sua linha"; mas ao ouvir aquilo o imperador ficou com raiva, pensando que a bruxa estava fazendo uma piada, empurrou a camponesa que ainda estava segurando seu bebê em seus braços e a fez cair, causando uma grande ferida no rosto da criança. Ordenou que seus guardas prendessem a bruxa e cortassem sua cabeça. Muitos anos mais tarde, chegou a hora de o imperador casar-se, e sua corte recomendou que a melhor coisa era se casar com a filha de um general poderoso. Ele aceitou e chegou o dia do casamento. Na hora de ver pela primeira vez o rosto de sua esposa, que entrou no templo com um belo vestido e um véu que cobria completamente sua face, viu que aquele rosto bonito tinha uma cicatriz peculiar na testa. — Sorriu. — Esta lenda é tão enraizada nas culturas orientais que milhões de pessoas carregam consigo uma verdadeira linha vermelha. — Ele esfregou as mãos. — Uma linha vermelha a qual não podemos impor os nossos caprichos e nossa ignorância, uma linha vermelha que não podemos destruir. Uma linha vermelha que vai direto ao coração, que se conecta ao amor eterno. O amor de uma mãe, um pai, um irmão, um filho, um amigo, um homem ou uma mulher... Um fio vermelho que simboliza o amor e interesse comum. Cada um interpreta como quiser, mas muitas vezes as casualidades são tão fortes que não deixam dúvidas. Chamam-se almas gêmeas, corações entrelaçados com uma ou várias eternidades para viver.

Olhei para ele intrigada e ainda mais alarmada conforme contava a sua história, até que ele falou da linha vermelha. Olhei instintivamente para minha mão e ele olhou para ela como quem a seguisse. Naquele instante meus olhos se arregalaram e espantada o vi levantar a mão a qual tinha a linha também no dedo.

— Como?! Mas... Você também a vê? — Assustada demais, levantei de súbito da cadeira que estava e ofeguei ainda olhando-o.

— Ângela, certa vez eu andava na orla de bicicleta quando, ao tentar desviar de uma criança, caí e bati forte a cabeça. Eu sempre me cuido e nunca ando de bicicleta sem capacete, mas naquele dia saí sem e aconteceu esse acidente. Pela forma que bati fiquei com traumatismo craniano e alguns dias em coma, quando acordei estava com essa linha amarrada no dedo. — Deu de ombros. — Loucura, não? Ninguém a vê, somente... — Fez uma pausa. – Nós.

—... Mas... Como você sabia de mim?! Da linha em mim?! E por que estamos ligados a essa linha?! O que é essa linha vermelha, afinal?! — Despejei um monte de perguntas e senti meu corpo trêmulo, minha mão tocou a minha testa sentindo que teria uma nova crise de ansiedade.

— Calma, respira, vou responder todas as suas perguntas. — Ele baixou a mão. — Eu vim visitá-la dias depois que foi operada, estava em coma e só a vi do lado de fora da U. T. I. pela janela de vidro. — Ele fez uma breve pausa. — Eu mal pude acreditar que vi a outra ponta da linha nos ligando, então, depois de muito procurar, entendi o motivo.

— Está querendo dizer que somos almas gêmeas, é isso? — Olhei alarmada.

Ele ergueu os ombros e ainda sorria para mim quando eu fechei a face e dei um leve sorriso nervoso.

— Loucura... Isso é loucura! Eu não acredito nisso, uma linha que só quem é louco fica imaginando coisas a ver! — Encostei-me na parede e depois olhei para ele respirando ofegante, fiquei tonta e a sala parecia menor, era como se fosse me sufocar. — Sr Carlos Godoy, não sei nada sobre você e muito mesmo essa história toda, se essa linha está aqui... — Sacudi no ar a mão onde a linha estava amarrada. –... Não acredito em nada do que falou, afinal só podemos ser...

—... Somos loucos... Isso que quer dizer?

— Eu acredito que pode ser loucura, menos uma fábula oriental onde nós dois somos ligados por uma linha e que somos almas gêmeas. 

Ele puxou a linha de sua mão e eu senti esse puxão. Alarmada, voltei a olhar minha mão com a linha amarrada no dedo mindinho.

— Isso para mim parece bem real, Angela.

— Eu preciso pensar... Juro que preciso pensar com calma. — Respirei fundo e levei a mão à testa um tanto tonta.

— Pode pensar à vontade, eu já sei a resposta e ao meu ver... — Olhou-a de cima a baixo. –... estou bem feliz com o que encontrei no final da linha.

Bufei encabulada e fui à mesa pegar minha agenda e celular.

— Eu quero tirar essa linha da minha mão. — Senti uma raiva súbita naquele momento.

— Não ouviu a história que contei? Não tem como, estamos ligados.

— Impossível, tem que ter uma forma de tirar isso da minha mão, passei esse último ano me sentindo uma louca e paranoica e agora vem você com essa sandice! Isso é fora da realidade, coisas assim não existem. — Irritada puxei a linha do meu dedo, porém nada aconteceu.

Ele ficou calado um tempo e se levantou pegando suas chaves e celular.

— Ângela... — Caminhando até a porta, ele virou e deu uma última olhada. — Vou provar para você que sou sua alma gêmea e que essa linha é nosso elo eterno.

Eu prendi o fôlego sem poder sequer acreditar no que ele dizia, o vi sair da sala e encontrar meu chefe no corredor, confirmando que seria sua nova assistente e redatora.  Aquela história toda e a postura dele deixaram-me sem chão e assim, no final do expediente, fui para casa pensando em Carlos e naquela linha.

O Destino pode mostrar diversas formas de te encaminhar no mundo, porém há aquele destino que é inevitável onde ninguém poderá mudar. A linha uniu duas pessoas de personalidades diferentes e agora ambas iriam descobrir que o amor é algo inevitável.

 

-Fim?-

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