Conto: Keep walking

22 Mar 2018

 

O vento morno do litoral balançava a moto de um lado para o outro. Depois do farol alto da Harley Panhead 1948, a única luz naquela estrada esburacada era a lua. Sentia a presença indesejável do “outro” a quilômetros de distância fazendo minha cabeça latejar como numa manhã de ressaca. Bem que esse poderia ser o último dos vampiros, então eu teria cumprido meu juramento.

 

A estrada silenciosa era cercada de uma vegetação tão seca e retorcida, que às vezes eu tinha a impressão de ser a única coisa viva naquele lugar, se eu estivesse vivo. Quando o asfalto melhorou um pouco, pude finalmente acelerar fazendo o ponteiro atingir os 200 km/h, atraído pelas curvas, plainando como um morcego no seu turno da noite. Depois de um tempo no meio da neblina, avistei ainda distante uma luz esverdeada e percebi que estava na hora de abastecer; não a moto, mas minha garrafa de uísque de bolso.

 

O posto BR pertencia à cidadezinha de Passagem. Dava pra perceber que o local era um ponto de parada de caminhoneiros e prostituição. Estacionei a moto em frente à loja de conveniência. O estrondo do motor fez as vidraças chacoalharem. Baixei o descanso, retirei as chaves e continuei montado enquanto retirava as luvas de couro, sendo encarado pelo frentista e único atendente na loja. Cocei a barba grossa que revestia todo o meu rosto, analisando os dois por trás dos óculos espelhados. Mesmo à noite não tirava o acessório que escondia meus olhos vermelhos. Nunca usei capacete, sempre detestei aquela merda que me impedia de sentir o vento no rosto. E no final das contas, não tinha medo de bater a cabeça. Até seria bom. Talvez as coisas voltassem ao normal. Olhei no relógio conferindo às horas. Já passavam das duas da manhã. Estava montado naquela moto desde o pôr-do-sol. Eu só precisava de um bom uísque para relaxar.

 

Quando pisei na loja de conveniência senti uma pontada de dor na cabeça tão forte que tive que me segurar para não gritar. A presença do “outro” martelava meus miolos e eu podia ouvir a voz dele em minha mente, como se estivesse escondida em um turbilhão de águas em Foz de Iguaçu.

 

As garrafas na prateleira de vidro atrás do balcão foram as primeiras coisas que reparei naquele lugar. O uísque Jack Daniel’s pela metade, a Vodca Sminorff ainda com lacre, e duas de Velho Barreiro. Qual é o problema de se ter Black Label? Tudo o que eu queria era aquela garrafa preta com meu nome: Johnnie. Mas antes que eu pudesse perguntar ao funcionário se havia algum litro escondido, um arrepio me sobreveio. Virei freneticamente para todos os lados tentando identificar de onde vinha aquele cheiro sedutor. Minha boca salivou, enquanto a língua era corroída por um desejo profundo e incontrolável. Aquela sede inacreditável estava ali mais uma vez, turvando meus pensamentos, consumindo a alma, aprisionando a mente instigada pelo cheiro de sangue.

 

Um caminhoneiro saiu do banheiro e passou me encarando. Parou no balcão pedindo um papel para enxugar um corte feito na mão. Cravei os punhos tentando me controlar. O cheiro brutal de sangue voltou, velando todos os meus sentidos, sobrepondo-se ferozmente. Essa é a pior sensação de todas! Rangi os dentes e enfiei a mão no bolso da jaqueta arrancando um punhado de notas de 20 e 50 reais.

 

— Tem outro uísque? – perguntei na esperança de pegar aquela garrafa e dar logo o fora dali.

 

— Só esse patrão – respondeu o atendente ajudando o caminhoneiro a enfaixar a mão.

 

— Me dê esse mesmo – minha cara demonstrava total impaciência. Não sabia quanto mais suportaria antes de iniciar a carnificina.

 

— Calma aí patrão, deixa eu terminar esse curativo aqui!

 

— Agora! – engrossei a voz tentando intimidar o rapaz que aparentava uns vinte anos. Ele nem se importou, e isso me enfureceu. Estiquei o braço me debruçando sobre o balcão e agarrei a garrafa de Jack Daniel’s. Dei um longo e delicioso gole. O álcool percorreu minhas veias aliviando toda adrenalina. Joguei duas notas de cinquenta sobre o  caixa e fugi dali o quanto antes. O rapaz tentou me dizer alguma coisa, mas não teve tempo de correr até a moto. Disparei com a Harley levantando um rastro de poeira. Se tivesse consumido meu desejo sanguinário naquele posto, perderia mais tempo e deixaria sinais de minha passagem.

 

A discrição é o sucesso da minha existência. Há cem anos tenho feito isso com êxito, desde que meu irmão destruiu minha família e depois a minha vida. Quando ele me transformou nisso que sou hoje, a primeira coisa que fiz foi arrancar sua cabeça. Dizem que não se pode matar o que já está morto. Mas em estranhas circunstâncias, até a morte pode morrer. Desde então jurei exterminar essa raça do inferno! Já são 23 vampiros ao longo de um século. Depois de tudo o que já vi, posso afirmar com propriedade que as únicas coisas que não morrem são as lembranças. Elas resistem ao tempo como uma coroa de espinho perfurando sua mente, trazendo uma dor indescritível na alma. Pode-se lavar as mãos, apagar as manchas de sangue, mas jamais mudar o passado. A noite em que encontrei meu irmão sobre o corpo da minha esposa com os dentes cravados no pescoço dela, e sobre o sofá meu filho 5 de anos morto e todo desfigurado, é um pesadelo sem fim: uma imagem impressa com fogo na alma e que levarei por toda eternidade.

 

Como um ímã eu sou atraído pelos outros de minha espécie. Guiado pelo meu  apurado sentido de ecolocalização. Não preciso do auxílio de mapa nem de placas para encontrá-los, basta usar os instintos. Deixei o asfalto seguindo por um trecho de terra até o vilarejo. Poucas luzes acesas naquela madrugada fria. Nada animador. A maioria das casas parecia abandonada e caindo aos pedaços. E na parte mais alta, a capela com sua cruz banhada pela lua, me lembrava de que não há mais redenção para mim.  Assim que passei pela placa de Bem-Vindo na entrada daquele lugar remoto, fui atingido por uma voz na cabeça, como se o próprio demônio sussurrasse o meu nome. Não Johnnie; mas meu verdadeiro nome. Parei a moto para não cair e tomei outro gole do uísque. A voz pareceu sumir. Dei mais um gole na esperança que ela não voltasse tão cedo. Guardei a garrafa no bagageiro do lado direito junto a algumas peças de roupa e retirei dali minha faca militar. Nunca se sabe o que vai encontrar. Mas com certeza, o pior cenário é quando tenho que decapitar mulheres. Não consigo esquecer Catarina morta no vestido vermelho que lhe dei no nosso aniversário de dez anos de casamento.

 

O local era tão silencioso, que eu preferi seguir a pé. Minha moto despertaria metade da população, e depois seria difícil esconder o corpo. Estacionei numa esquina vazia. Olhei no relógio, quatro horas da manhã. Tudo o que eu precisava era me concentrar, fazer o trabalho bem feito e continuar nessa vida errante, vazia, fugindo do Sol, como o diabo foge da face de Deus. É uma desgraça ser um Caim eternamente condenado!  

 

Mais adiante um poste com a lâmpada queimada e logo abaixo dele um bar: o único desmazelado estabelecimento comercial aceso àquela hora. A presença da aberração sanguessuga emanava uma áurea vermelha intensa. Quando era assim, eu sabia que o vampiro acabara de se alimentar e a merda já estava feita! Guardei os óculos no bolso da jaqueta e segui com a faca na mão, preparado para o pior.

 

O bar estava deserto. O motor da geladeira fazia mais barulho que o rádio antigo tocando forró madrugada adentro. Na estufa um ovo roxo e dois pedaços de torresmo; sabe lá quando foram feitos. As cadeiras de madeira sobre as mesas indicavam que o proprietário já estava fechando quando o desgraçado apareceu. Não havia sinal de vida ali. Involuntariamente meus olhos passearam pelas garrafas, procurando uma de uísque intacta. Nenhuma. Eram todas de cachaça, das marcas mais conhecidas às de alambiques locais.

 

Um ruído no fundo do bar despertou minha atenção. Minha audição mais apurada que de um morcego, podia ouvir tudo o que ocorria, quer fosse no céu, quer fosse na terra. Ouvia até muitas coisas que ocorriam no inferno! Mas o pior era a nefasta presença do verme sanguinário que atingia meus pensamentos como agulhas. A cada cabeça que eu arrancava meus poderes aumentavam e com eles as reações adversas, como a telepatia. Essas coisas deviam vir com botões para a gente desligar quando está de saco cheio! Apesar de ser dolorido e extremamente cansativo, usei meus poderes conseguindo ver através dos olhos do desgraçado. Estava debruçado sobre um corpo se alimentando de sangue. Meu estômago queimou ansioso por aquele líquido escuro cheio de vida. Era isso que meu corpo queria, era essa maldição que corria em minhas veias.

 

Agora era fácil encontrá-lo, bastava seguir até a fonte daquele aroma perturbador. Caminhei por um corredor estreito encardido. Todos os meus sentidos estavam em alertas para aquela caçada. Passei por uma porta encostada, com uma placa desgastada indicando o banheiro. Ouvi um coração batendo acelerado cada vez com mais força e um leve gemido, que eu sabia que não era de dor, mas alguém apavorado se arrastando com medo da morte.

 

Dei um passo para trás. Com a mão direita empurrei a porta enquanto com a esquerda segurava a faca. Ao abrir o banheiro, vi diante de um menino de apenas 5 anos. Bracinhos finos, cabelo despenteado, roupa suja e um só pé de chinelo. Fiz um sinal para a criança pedindo silêncio. Ele assentiu que sim com a cabeça se afastando até se encostar no único espaço vazio entre o vazo sanitário e a parede. Fechei a porta e fui açoitado novamente pelo cheiro de sangue. Não havia como escapar daquilo. Nada do que eu já havia presenciado se encaixava com aquele cenário tão avassalador e tão potente. A carnificina estava em todo lugar. Um rastro vermelho no chão deixava claro o que me esperava no fundo, onde provavelmente era o estoque do bar. Com a faca em punho, caminhei cerca de três metros desviando dos ratos apavorados que circulavam por aquele corredor mal iluminado pela única lâmpada incandescente piscando por causa dos fios desencapados que sustentavam teias de aranha por todos os lados.  

 

Parei diante de uma porta entreaberta. O outro também devia estar sentindo minha presença. Lentamente, com muito cuidado, empurrei a porta do estoque. O ambiente parecia um labirinto formado por caixas de cervejas. Escuro. Sombrio. Não para meus olhos acostumados as trevas. Na verdade qualquer luz mais atrapalhava que me ajudava. Segui pelo corredor central. Tentei me concentrar atrás do calor humano, mas o local estava tão impregnado de sangue que o único sentido que eu conseguia ter era o olfato, o que dificultava ainda mais localizar o assassino. Segui até o fim do estoque e virei à direita. Uma pequena janela trazia a claridade da rua destacando uma sombra debruçada sobre um corpo. Uma sombra enorme! Ele estava ali e sentindo a minha aproximação, virou o rosto para trás.

 

“Esse já é meu, procure em outro lugar!” — a voz grave e rouca do vampiro ressoou na minha cabeça, enquanto ele devorava um pedaço do braço humano, como quem come uma coxa de frango. O líquido grosso e vermelho escorria pela barba comprida e pingava no chão.

 

“Eu não vim atrás disso” — respondei mentalmente segurando firme a faca. Sabia o que deveria fazer. Tinha que ser preciso. “Eu vim para acabar com isso!”

 

O vampiro não respondeu, mas os meus sentimentos ruins despertaram os dele. Aquela coisa inumana levantou-se e grunhiu dando um passo na minha direção. Seus olhos se destacaram na escuridão, vermelhos como brasas de carvão, um brilho pálido e fugaz, mas, sobretudo, notável. Aos pés daquele animal insensível estava sua vítima: uma mulher que, apesar do rosto desfigurado, aparentava ter uns trinta anos. A primeira coisa que me veio em mente foi a imagem de Catarina. Isso me distraiu a tal ponto, que nem percebei a aproximação do desgraçado saltando diretamente no meu pescoço.

 

Senti suas garras penetrando minha carne. Meus braços mal o alcançavam. Apesar dele ser um novato, era bem forte, pois estava alimentado, ao contrário de mim que só tinha álcool percorrendo as veias. Consegui cravar a faca na barriga do ordinário que grunhiu me soltando. É claro que aquele golpe não foi mortal, apenas o distraiu para que eu tivesse tempo de pensar no que fazer. Tinha que tomar cuidado com os pensamentos, já que qualquer deslize revelaria meus planos. Aproveitei aquele instante em que ele tentava retirar a faca do abdômen, e o chutei. Aquela coisa bateu com as costas numa pilha de caixas de cervejas que caíram sobre ele. O barulho foi ensurdecedor.  

 

Só dava para ver um pé de fora daquela pilha de caixas, cacos de vidros e cerveja escorrendo por todos os lados. Perderia um tempão para puxar o maldito e depois decapitá-lo. O sol estava para nascer. Talvez não valesse a pena arriscar, talvez não fosse um problema meu. Mas se não fizesse isso, novas vítimas surgiriam, e o pior, novos vampiros.

 

Deixei o estoque e caminhei em direção ao banheiro onde estava escondido o garotinho. Salvá-lo já era um bem que faria a humanidade. Abri a porta e encontrei só o vazio. O pirralho havia fugido! Melhor para ele. Melhor para mim que não precisaria mais me preocupar. Segui em direção à saída e parei por um instante diante das garrafas de cachaça. O cheiro apurado de malte invidia meu nariz. Sim, tinha que ter um uísque ali. Dava tempo. Saltei sobre o balcão procurando a garrafa, e a encontrei escondida. Agarrei o recipiente verde de Passaport e bebi como quem mata a sede com água. Lá no fundo o barulho de cacos de vidro indicava que o “presa-comprida” estava se levantando. Quase engasguei quando escutei o grito apavorado de criança. Bem na melhor hora!

 

Com a garrafa na mão, corri até o estoque. A primeira coisa que vi foi o maldito com os dentes cravados no pescoço do menino. Aproveitei aquele instante de distração onde o vampiro se deleitava com o sangue da vítima, e o atingi com a garrafa. Que desperdício! Cacos de vidro verde e uísque voaram por toda parte enquanto o desalmado desabava. O garoto também caiu de lado. Não tive dúvidas! Com o pedaço de vidro que sobrou em minha mão rasguei o pescoço do facínora antes que ele pudesse despertar. Foi a pior que vez que fiz aquilo, já que não era fácil arrancar uma cabeça com um caco de vidro. Quando finalmente consegui, segurando pelo cabelo comprido arremessei a cabeça do vampiro para o meio das caixas caídas. Senti um imenso alívio, e um grande renovo, enquanto toda a energia dele era incorporada a mim. Mas a sensação durou pouco. Havia outro vampiro ali.

 

Aproximei-me da criança confirmando minhas expectativas. O desgraçado usou uma mordida rasa menos dolorida bem na veia principal para ali sugar o sangue e depois liberar seu veneno por meio de um forte anticoagulante na saliva, retardando a cicatrização da ferida. Pousei a mão sobre aquele coraçãozinho e aguardei alguns instantes. Ele continuava a bater com um som abafado, em um diabólico palpitar contaminado, lutando contra o vírus que infectava todo o sistema nervoso. Aumentava sua intensidade e depois diminuía.  

 

Eu precisava encontrar aquela faca logo e livrar o garoto da maldição antes que ele se transformasse totalmente.

 

Revirei alguns estilhaços procurando pelo objeto afiado As palpitações, porém, continuavam como uma orquestra aproximando-se do clímax! Parecia-me que o coração da criança iria arrebentar. Mesmo debaixo do barulho dos cacos de vidros e caixas de plásticos sendo arremessadas, eu ouvia claramente o coração pulsando tentando expulsar do corpo o veneno. A pior parte da transformação estava para acontecer e eu não encontrava a faca.

 

Quando finalmente encontrei o objeto metálico, escutei o urro estridente do menino. Um grito horrível que ecoou por todas as ruas despertando os cães na vizinhança. A maldição havia se impregnado naquele corpo miúdo, agarrando a alma fugitiva no instante que ela deixaria o moribundo, paralisando para sempre um coração tão novo.

 

A onda de poder que imanou da criança quase fez minha cabeça explodir. Se eu não desse um jeito, aquele garotinho se tornaria um poderoso vampiro. Não iria crescer, envelhecer, ou ganhar músculos, mas seus poderes sobrenaturais eram sombrios. Era uma áurea negra que eu podia sentir o envolvendo.  Retornei com a faca até o local onde o pequeno estava caído. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. O canto da boca espumava enquanto ele se debatia num quadro de alucinações. Dali em diante ele teria uma mudança brusca de caráter, inquietude e perturbação do sono com tenebrosos pesadelos por longos anos. Eu sei que quando abrisse os olhos, qualquer sinal de claridade comprometeria sua visão.

 

Ele tentou levantar, mas caiu e ficou de joelho. A primeira coisa que fez foi colocar a mão na mordida extremamente dolorosa. Eu lembro bem! Aqueles buracos de dentes  levam anos até desaparecerem completamente de seu pescoço. Bem mais rápido que a queimação e formigamento pelo corpo.

 

Se eu matasse aquela criança, não seria melhor que meu irmão. Mas se não o matasse ele despertaria com uma sede insana de sangue e correria pelas ruas devorando qualquer pessoa que encontrasse no caminho. Apertei o punho da faca. Merda! O garoto ficou de pé. Os olhos vermelhos, pupilas dilatadas. Olhar sanguinário. Se meu irmão ao menos tivesse poupado o meu filho, os meus anos não teriam sido tão solitários. Assinar aquele menino não iria aliviar a perda do meu filho. Naquela minúscula janela a claridade indicava o crepúsculo. Eu tinha que decidir logo.

 

Soltei a faca.

 

“Vamos” – disse com a mente, enquanto meus dedos compridos agarravam o pulso magrelo e sem vida do garotinho que parecia despertar de um sonho. Certamente ele já devia estar sentindo a boca seca e com gosto amargo. Dava para notar a tontura residual e a fraqueza nas pernas.

 

— O que está acontecendo? – perguntou o menino com sua voz fina de criança que não condizia com os poderes que ele despertaria.

 

“Precisamos chegar logo à minha moto” — respondi mentalmente, tentado limpar a mente dele coberta por um denso nevoeiro. Ele agachou se esforçando para suportar um mal estar terrível e uma náusea que só não provocava vômitos porque o estômago estava completamente vazio a espera de sangue fresco.

 

Arrastei o moleque ainda sonolento. Vesti os óculos do sol protegendo minha vista. Pra quê eu fui deixar a moto tão longe?  Se a gente não alcançasse logo a minha Harley e nos escondêssemos do sol o menino jamais saberia o doce gosto da seiva da vida. As primeiras horas são cruciais, já que os únicos instintos são a sede de sangue e a necessidade de propagar aquela maldição. Você simplesmente esquece quem você é, ou já foi. As lembranças vão retornando aos poucos, às vezes algumas levam anos para aparecer. Era com isso que eu contava. Talvez pudesse bloquear na mente daquela pobre alma toda a desgraça do passado e cuidar do pequeno como meu filho. Uma companhia para toda a eternidade, um filho que o diabo me levou muito cedo.

 

“Estou com sede. Muita sede! Para onde estamos indo?” – o menino usou pela primeira vez seus poderes telepáticos. Ele mal conseguia acompanhar os meus passos e eu o arrastava pelo chão de terra batida.

 

“Não importa só continue andando” – respondi indo em direção a minha moto e da garrafa no bagageiro. O novato tinha sede de sangue, e eu de um bom uísque escocês: a única coisa capaz de aliviar a maldita sede sanguinária. Ainda acho que os primeiros vampiros deviam ter surgido nas místicas montanhas escocesas, em tempos remotos e inventado essa amarga bebida dos deuses para suportar a eternidade.

 

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