Conto: Anna

22 Mar 2018

 

Anatea formicaria se trata de uma espécie de aranha que se traveste de formiga para fugir dos predadores de aranhas. Vive na floresta tropical da Nova Caledônia e até 1967 era considerada como pertencendo à família clubionidae.

 

Anna. Esse era o nome gravado na placa de bronze, pendente apenas por um parafuso na porta antiga. O segundo parafuso, no chão, beirava o portal. O sobrenome gravado na placa cheirava a algo como elite paulistana do início do século passado. Algo italiano tendendo para o pastiche. Empurrou lentamente a porta, enquanto sons vindos de dentro antecipavam uma Rita Pavoni pavorosa num aparelho de som que soltava arroubos de rouquidão misturados à estática de um mau contato que persistia desde a década anterior. A mobília era tão antiga quanto a porta, o sobrenome, a canção brega, o ar abafado, o cheiro de guardado. Nada ali cheirava a mundo. Na sala, apenas o passado. Um passado. Indistinto. Sem dor ou ar-dor. Só silêncio. E tempo. Passado.

 

Ela é jovem. Não tanto, mas abaixo dos trinta. Pode-se vê-la entrando na sala e mostrando ambas as mãos, e delas nem sequer um anel ou aliança, bem como nenhum enfeite nos braços ou no colo alvíssimo, no decote ornado por tecido azul cobalto, o que denota a) ela tem pouca preocupação com aparência ou b) ela provavelmente é solteira. Como as verdades foram soterradas junto com os tijolos de um muro perdido na história, supõe-se os itens a e b, apenas supõe-se, assinalando-se que eventualmente nenhum deles pode portar verdade.

 

A jovem contém um suspiro: a respiração sempre foi bom cano de descarga para a angústia, agora retida. O que ela agora vê é uma sala abarrotada de badulaques antigos, flâmulas de clubes de tênis, yatch clubs, copos altos, como os em que se tomava uísque nos anos 1970, empoeirados, cortinas vetustas, compridas, escuras, poeirosas, pequenos enfeites de gosto duvidoso e cores abusadas espalhados por móveis que supunham um jacarandá extinto, de tão ancestral.

 

(Quem viveria rodeado por tanta saudade, ela se pergunta.)

 

Os dedos nodosos, a pele sarapintada de nódoas marrons, o esmalte rubi, o anel de formatura, estreita ilha metálica cercada de carnes invasoras, dedos tamborilando silentes o tecido estampado da bergère. Ela ouviu a porta se abrir lentamente. Os dedos diminuem o volume da Pavoni até a inexistência.

 

“Lens nubila”, a voz da mulher mais velha sentada na bergère sussurrou.

 

Uma das mãos jovens acorre à beirada do tecido cobalto e o colo lunar treme assustado com a voz que pareceu ter saído de um daqueles objetos, deixando-a confusa. Alices, coelhos falantes e gatos risonhos. Lisergia. O par de jovens olhos verdes procura pela sala. De onde, aquela voz? Boca seca, não conseguia articular a resposta que construíra: que língua é essa? Pensa na hipótese de voltar sobre seus passos, fechar a porta lenta e silenciosamente e deixar aquela demanda sobre alguma escrivaninha, alguém a pegasse. Mas não. Ela tinha ouvido mesmo lens nubila? O que significava?

 

“Quem...?”, a voz jovem igualmente sussurrou, mais por secura na garganta que senilidade na voz, mais por não saber exatamente o que queria saber, a voz estancou, a pergunta incompleta no ar, arco sem tensão.

 

“Anna”, respondeu a voz entrecortada pelos anos.

 

“Me chamo Anna”, murmura, desta vez um pouco mais audível, a voz jovem, quase que no mesmo momento. “Eu sei”, completa, respondendo à sabida coincidência de nomes, “Li na placa, na porta”.

 

Majestática. Patética. Uma figura ancestral se mostrou, levantando-se da bergère, primeiro de costas para a porta, virando-se em seguida mas lenta, adernante, síncopes nas pernas indecisas, em direção à jovem visitante. Sobrancelhas eternamente arqueadas pelo risco de um lápis de olho com ponta irregular, esgar de susto eterno, olhos embaciados fitando-a através. Algo atrás, parecia, chamava mais a atenção daqueles verdes, como os da mais jovem, opacos.

 

“Meu sobrenome é”, a dona dos verdes embaciados disse, interrompida pela jovem.

 

“Temos sobrenomes diferentes, apesar dos prenomes idênticos, inclusive no duplo N”, a mais jovem clama, decidida, “Aqui está, pegue”, completa, ofertando um envelope com algum selo oficial.

 

A Anna antiga cedeu em gesto mas o degolou em meio, evitando pegar o envelope. Apenas disse “Palíndromos, isso o que somos”.

 

“Vim entregar isso para a senhora, pegue”, insiste a dona dos jovens verdes, desviando-se de um enigma para ela pouco atraente. Deus do céu, pode-se supor que tenha pensado, por que essa velha não pega logo o papel e me deixa sair desse, desse, desse.

 

“Você gosta de coisas irresolvíveis”, vaticinou Anna. O silêncio e a inação de Anna não a surpreenderam, “Vo-cê-gos-ta-de-coi-sas-ir-re-sol-ví-veis”, repetiu, mascando e alteando sílabas conforme comumente fazem com ela própria, supondo-a, por velha, surda e idiota.

 

Uma brisa antiga sopra por trás de Anna, arrepios na pele como encapelos em mar de tempestade. Drummond, imagina lembrar-se de ter lido algo semelhante. “Não compreendo”, consegue tartamudear, indecisa sobre se aquela conversa deveria ou não chegar a termo. Só quer terminar com aquilo, voltar de onde veio, entregar a demanda concluída e ir para casa. Paz. Imagina-se colocando a mídia e escutando sair das caixas um Debussy plasmado de nonas inomináveis que a fariam flutuar, azul, chuvosa, inefável, pluma de carne, seda sem sexo. O que essa velha fala, pergunta-se internamente, o que quer dizer com coisas irresolvíveis, que mau gosto para escolher palavras essa velha tem!

 

“Lens nubila, eu disse, para em seguida dizer um termo que julguei que igualmente não foi compreendido: palíndromo”, rasgou o silêncio a voz de Anna, “Nem uma coisa nem outra você compreendeu, mas seguiu adiante. Por quê?”

 

Anna cruza os braços, amassando o envelope nos esvoaçantes cobaltos, inapta para aquilo, “Vim aqui para”, reticencia, interrompida por Anna.

 

“Entregar a porra de um envelope é assim tão mais importante para você, minha filha? Vamos, me diga o que significa lens nubila e o que é um palíndromo”, retrucou Anna. Lembrou-se de ter criado aranhas quando criança. Dava-lhes moscas mortas. As aranhas se aproximavam da presa, picavam-na e se afastavam. Anna retirava as moscas picadas e não comidas, por acreditarem-nas indesejadas pelas aranhas. Mal sabia ser a digestão das aranhas extraintestinal: injetam o veneno na presa juntamente com seus sucos digestórios, e após certo tempo, sugam o líquido resultante dos órgãos das presas.

 

Lens nubila lembra uma língua antiga, talvez latim, não estudei essa porra, pensa, obediente à Anna de verdes embaciados, então não sei o que significa. Palíndromo faz Anna lembrar-se de aulas de português, brincadeiras com palavras e frases estranhas, isso, invertidas, que dão na mesma, lidas do início para o final ou ao contrário. Palíndromo. Mas.

 

“Opacidade do cristalino: lens nubila. Isso quer dizer que tenho catarata, minha Anna jovem, e lamento pois não consigo ver inteiramente seu rosto, que julgo belo pela idade e cor. É ruim ver as coisas com um filtro leitoso entre elas e meus olhos. Jamais gostei de leite, aliás. Você é bonita?”, disse, estendendo as mãos para um ponto no espaço onde supunha estar o rosto de Anna.

 

Anna deixa-se perscrutar por mãos antigas e responde, êxtase e susto, presa e surpresa, “Acho que sou. Tenho olhos bonitos, verdes como os seus”.

 

“Tenho olhos bonitos como os seus ou verdes como os seus?”, perguntou-lhe ácida Anna, sem interromper o garimpo de dedos, curvas que se fechavam em si mesmas, jogo de aranha-rainha com o minúsculo inseto, no rosto mais jovem. Vinha-lhe à mente ela criança, partindo ao meio saúvas e deixando-as debaterem-se na recente surpresa da amputação sob a soleira da porta da cozinha. Ela ainda por cima as cercava com uma linha de álcool líquido e riscava um fósforo: o desespero das formigas ao se verem enoveladas, presas, lhe dava um prazer oceânico. Freud não explica: concorda.

 

“Não foi isso que eu quis dizer. Disse. Digo. A senhora é bonita. E tem olhos bonitos”, tateia de volta com palavras Anna. As mãos de Anna em seu rosto, antes agradáveis, agora diziam algo de ânsia, desespero, saudade, sabe-se lá, mistura de sentir-se carinho antigo com algo de vitrine, desejo, volúpia. Eu sou uma oficial de justiça em início de carreira, pensou ter dito antes de pensar ter sentido uma pontada atrás da nuca, só quero entregar-lhe o maldito envelope e ir para casa debruçar-me nas nonas de um Debussy azul, azul, azul, que sono, deixe-me ir, foi bom tê-la conhecido, mas nada, absolutamente nada saiu de seus lábios, que se iam murchando na mesma medida em que os lábios da outra Anna se iam inchando, tempo revolto o desse milênio novo, imaginou ter ouvido sair dos lábios antes murchos, agora róseos da outra Anna, e se enolevou em lembranças que pareciam suas, névoas, estranho, pois não conseguia mais se mexer, mas depois foram-se misturando, não se lembrava de algumas, mas lembrava-se, e se eram lembranças eram suas próprias, e então a outra Anna usava um decote maior que o seu, sobrancelhas bonitas, grossas e bem desenhadas, seda na pele de novo nova, mas ela não conseguia ver muito detalhadamente, furacões são coisas que a ciência tenta compreender, pensou, mas são pontos de caos que se debatem ante a vanidade da compreensão, antes de supor ouvir a voz clara da outra Anna dizendo algo como palíndromos serem um tipo de palavras curioso, pois podem começar por seu princípio ou seu fim, afirmava a outra Anna, encimada por olhos verdes novinhos em folha que a névoa de seus olhos antigos de oficial de justiça em início de carreira supunha enxergar.

 

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